Sábado, Outubro 25

Frapê

Depois do calor vem o frio (e depois da tempestade vem a bonança)

Era um dia como qualquer outro (mais clichê impossível) e fomos ao nosso passeio matinal de sábado costumeiro, de bicicleta, a não ser pela rota.
Discutíamos a imbecilidade da professora de literatura francesa (?), rindo-nos. Quando chove num parque de grama recém-cortada, o cheiro é irresistível, que tal parar?
Deitamo-nos no meio da grama, eu fechei os olhos e senti a chuva por cair, tocando meu rosto e corpo já um pouco suados, o vento que sussurrava como sempre dando direção perpendicular ao mergulho das gotas, direto à minha boca aberta num sorriso de criança.
Já te disse que adoro beijar na chuva? E as gotas não alcançavam mais meu corpo todo, com o seu por sobre este, mas sentia ainda meu rosto, sentia, sentia, sentia... agora sinto algo mais a molhar meus lábios, os seus.
Deitou-se em mim, como em noites de outrora outro calor, agora só há o seu sobre mim, e o meu sob você. "Mon petit vulcan, you're eruptions and disasters, I keep calm, admiring your lava I keep calm"
Aos poucos já nem sinto mais a grama me espetando o pescoço, mas dentes, mais dentes; não sinto mais minha blusa grudada nas minhas costas, mas seus dedos; não sinto mais minha calça apertada nas coxas, mais dedos.
Cheguei a projetar um sobressalto de surpresa, seu calor aumentava no meio do parque, mas deixei que a chuva o mantivesse só para mim, como minha frieza já o fizera.
Deixei correrem os dedos meus por sua blusa, e sob esta, e deixei que o vento a levasse para longe.
Tomamos chuva lá fora, quem disse que eu só gosto de café quente? Frapê me fascina.

-quer que continue?

Segunda-feira, Outubro 20

Cachecol

Tudo parece tão branco daqui de dentro. Tudo parece tão monossilábico, tão pouco alvissareiro, daqui de dentro desses olhos. Não que eu queira monólogos, nem diálogos extensos, apenas não me parece tão bem esse frio todo.
Um relacionamento por turnos, minha vez.
Eu te amo, e demais.
Sua vez.
Demais, demais.
Nossos sorrisos de pixels ou plasma não querem mais me satisfazer, o que eu posso fazer?
Não há comida que a fome não mate, nem calor que o frio não dê conta. Mentira.
Há frio que cachecol algum - nem de lã, nem de poliéster, nem de malha, nem de nada disso - resolva. Esse frio me consome, consumia, consome. Minha vez.
Eu te adoro, te adoro, adoro.
Sua vez.
Demais, demais, muito mesmo.
Por mais que eu quisesse que você me abraçasse nessas noites de frio insustentável, eu já percebi que esse casaco é fino demais. Demais. Meu frio não está aqui, nem o seu.
Façamo-nos cachecóis. Tricotemos dos nossos cabelos - naturalista demais? -, ou não. Tricotemos das nossas conversas - melhorou - o nosso cachecol. Não quero que seja des-- Minha vez.
Eu te amo, absurdamente, incrivelmente.
Sua vez.
Demais, demais, muito muito demais.
Não quero que seja desses cachecóis enormes, nem que sejam dois. Quero que façamos, nós, um cachecol curto, atemo-nos os pescoços sempre que o frio for insustentável. Queimemo-nos nessas noites, queimemos.
Minha vez.
C'mon baby, light my fire...
Sua vez.
Try to set tonight on... -
E danem-se os turnos:
FIRE!

Domingo, Outubro 12

Cenas Soltas. #1

Lamento dizer, mas não há jeitos de fazê-la entender. Meu dia foi uma merda até agora e não acho que - nem a sua presença - possa melhorar. Perdi minha carteira e, dentro dela, as fagulhas de dignidade que ainda tinha. Eu sei que será difícil convencer que minha dignidade fosse brilhante ao ponto de fragmentar-se em multi-fagulhas, mas é verdade. Não sei quem eu sou, digo, quem eu penso que eu sou? Por fagulhas, acho que quis dizer pontos opacos da identidade que você conheceu. Você se lembra de quem eu sou? Vou pedir a segunda via da identidade.