Tempo
Por todo aquele tempo, as passagens continuavam em cima da cabeceira. Desde que havia saído do apartamento, há quase seis meses, as xícaras dos dois cafés que havia tomado estavam sujas. Os restos de café fizeram crosta e cheiro na casa. Não achava que conseguiria limpar aquela mancha de café nas xícaras, por isso nem tentou. Desceu rapidamente e comprou duas xícaras novas, nem tão interessantes, mas bonitas mesmo assim. Comprou mais café também.
Sentado na frente da TV, ficou olhando a luz que se mexia enquanto o café lhe descia - não tão bem, só para constar. Ouvia só respiração atrás dos óculos novos e da pena que sentiu de si mesmo, pela preguiça que sentia de fazer qualquer coisa. A cena pareceu quase intelectual, mas ele não estava pensando. Só olhava a TV fazendo as mímicas e ouvia seu próprio pulmão reclamando do ócio. Parou de pensar sobre como estava respirando - deixou o pulmão no automático - e foi procurar música.
Não tem.
Sentou-se de novo, esperando alguma mancha aparecer na sua cabeça, que fosse. Enquanto esperava, foi procurar papel para descrever a monotonia, mas a própria folha declinou (não tão respeitosamente) seu papel naquela história muda. Disse-lhe que folhas não gostam de serem escritas sem som. Seus livros - neste momento - disseram-lhe que não era nem justo lê-los sem música de fundo. A TV continuou muda. A tentar persuadir a folha, tentava escrever-lhe um pedido formal, mas a folha não permitia que aquelas palavras fizessem sentido. A caneta disse-lhe para falar com a folha; se convencê-la de me deixar escrever, ajudo a descrever seu quarto.
Simplesmente não sabia como convencer uma folha de papel do seu papel como folha de papel, já que a folha recusava-se a ler o que queria escrever-lha. Ora, essa. Onde já se viu folha sem papel? Até as verdes, nas árvores, têm: cair quando mudam de cor. Decidiu seguir o conselho da caneta e tentou falar com a folha. Entretanto, algo mágico aconteceu, e nenhum som saía de sua boca. Tentou cantar, gritar, cantarolar, mas nada riscava a folha. Num semi-desespero, quase rasgou a folha, que - então - submeteu-se a seu papel e permitiu-se ser escrita pelo tedioso desesperado.
Naquela vez, escreveu sobre como seria bom ter música de fundo. E aquelas duas xícaras de café cheias.