Sexta-feira, Abril 24

Aquele nosso do mundo...

O mundo olhou para baixo, da sacada do prédio. Mesmo que nunca tenham passado por isso, todo mundo conhece essa sensação. O silêncio que precede o pulo. Como em todo bom filme pouco original, no qual o personagem principal começa prestes a se matar, o mundo também tem direito de explicar os motivos aos expectadores. Também como num filme pouco original, o problema do mundo era a rotina - e tudo que ela faz. Desde pequeno, o mundo só fazia rodar e rodar sentindo dores fortes no estômago e na cabeça. Nunca soube porque rodava, e até usou medicamentos abrasivos para curar as dores, mas sem sucesso. Viu crescerem dentro de si, empérios e sonhos que caíam por terra enquanto outros menos glamurosos erguiam-se, pomposos e convincentes. Há quem ache covarde a decisão de se jogar de um prédio, cansado da rotina, mas ninguém sabe o que é ver tantos sonhos destruídos dentro de si. Ninguém sabe o que é escrever uma estória para cada poro do seu corpo.

O prédio não parecia ser suficiente. Mas ele sabia que seria. Quando algo não está certo, todo o resto é corrompido. Alguns se perguntam porque se preocupar com os sonhos dos outros, mas é que nesse caso, eram seus sonhos também. Esperava que sua vida de monotonia terminasse ali, esperava algo novo. Mas o que viria a seguir? Sempre se fala do ponto final, mas ninguém perguntou se é possível começar um novo parágrafo. Ele se partiria em pedaços numa terra que nem era sua, levando consigo todas as esperanças e sonhos. Até mesmo os que se ergueram, pomposos e convincentes. Então, o mundo percebeu que não parecia justo. Então, o mundo percebeu que não procurava justiça.

Justiça corre nos rios que sobem algum curso e nos beijos que descem algum torso. E toda a justiça do mundo está somente ai e em nada mais. O mundo não precisa de justiça maior que esses gestos semi-honestos e completamente naturais. O prédio estava de bom tamanho. Como em filmes - também pouco glamurosos - antes de pular, o mundo ouve uma música, como se fosse música de fundo. Não que a música realmente fosse algo espetacular, ou melhor, não seria em situações normais, mas não é todo dia que o mundo se joga. A melodia fazia-se tão suave. O mundo conhecia aquela música, uma das músicas que a gente ouve, são bacanas, mas nunca é música preferida de ninguém - nem de quem compôs. A música não o convenceu de não pular, mas fê-lo sorrir tão bonito que algumas pessoas lá embaixo até olharam para ele. Agora as pessoas perceberam que o mundo está prestes a morrer. Sem vírgulas demais.

Seria idiotice pensar que ninguém estaria preocupado com ele. Porém, seria idiotice também pensar que ninguém estava torcendo para ele pular. Pobres pessoas. Fúteis e pequenas, se contentando com a tristeza para se alegrarem. A tristeza do mundo. Que não é só dele. E nessas horas quem se importa com justiça? O que parecia tão banal ganhou agora um toque de glamour. Ele se jogaria. Tudo iria acabar. E ainda assim, seria manchete no jornal. A música parou, só o som meio amargo dos cochichos e das sirenas o alcançavam. O mundo respirou fundo, cansado de delongas.

Mas maior que o cansaço triste do tédio inteiro do mundo e das frustrações infinitas de tantos sonhos que o mundo não consegue realizar, maior que tudo isso é a própria sombra do mundo. O sol é sereno e azul perto da grandeza de um mundo suicida. O céu é tão brilhante e enérgico a rufiar seus estardalhaços no mundo inteiro. Um mundo triste vale mais que seus quinze minutos na TV? É mesmo. Tinha até equipe de TV para que todo mundo soubesse o exato momento que o mundo se jogaria. Pendendo para frente, balançando de volta para trás, o mundo rebolava num quase êxtase. Foi então, somente nesse instante, que algumas pessoas se deram conta do que realmente estava acontecendo. O que estava para acontecer! O mundo iria se jogar do prédio, e elas estavam lá embaixo; o mundo poderia esmagá-las, todas, e então todo mundo morreria. E seria muito egoísmo do mundo, se jogar sobre todas as pessoas, condenando-as, condenando seus empregos, seus frutos, seus filhos, seus destinos e mais dos seus sonhos. O mundo, de tão cruel, estava prestes a ser odiado por todas as pessoas.

Não que o mundo realmente esperasse mais do que ódio dessas pessoas. Não que o mundo realmente esperasse algo delas. Tanto era verdade que nada esperava que ali estava ele, em pé na sacada de um prédio comum, sem se quer olhar para baixo. Era verdade também, que o mundo tinha medo de altura. Pode parecer irônico, mas nenhum oceano é fundo o suficiente para afogá-lo e nenhuma chama é grande o suficiente para queimá-lo. E fazer milhares delas era trabalhoso de mais, até mesmo para o mundo. As pessoas saiam aos tropeções, abrindo espaço para ele, mas ninguém se atrevia a ir muito longe. Queriam saber o final. "Façam suas apostas!" gritava alguém e tantos outros gritavam valores logo em seguida. Algumas crianças choravam sem mesmo saber o porquê. O mundo parecia estranhamente menor daqui de baixo. Injustamente menor. É, nós estávamos lá. Talvez uma parte de nós quisesse tê-lo impedido. Mas nós sabíamos que o mundo, melhor do que ninguém, sabia o que devia ser feito. E enquanto os andares avançavam rapidamente na sua frente, foi possível enxergar toda sua grandeza novamente. E diferente de todos os filmes pouco originais o mundo teve seu ponto final, na esperança de novo parágrafo.

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MPG

Quarta-feira, Abril 15

Quote

So, the Colonel tought, here we come into the last round and I do not know even the number of the round. I have loved but three women and have lost them thrice.
You lose them the same way you lose a battalion; by errors of judgement; orders that are impossible to fulfill, and through impossible conditions. Also through brutality.
I have lost three battalions and three women and here comes the fourth, and the loveliest, and where the hell does it end?


Across the River and Into the Trees.
Ernest Hemingway

Sábado, Abril 11

Amálgamagma

Era silhueta subindo nuvens pretas e cinzas sobre cinzas e lava que escorria. A fumaça impressiona vãos olhares que se distraem do calor. A fumaça penetra olhares e os lacrimeja - sem emoção. A fumaça agora desce, adora descer assim. Ainda era silhueta que apalpava aqueles olhares de longe. Gostamos ser tão pouco físicos, em horas de contemplação. A pedido do tempo, não havia lava a molhar olhares em retidão tão plena, mas a mesma vontade que queima é a vontade que solda, cauteriza, tranquiliza. Através de um par de óculos, vimos o vulcão que já estava formado antes de o tempo dizer que nós existiríamos. A fumaça desenhava um corpo que podia ser tão observado quanto quisesse. O mundo ali era vermelho, você sabe.

Receio mirar-te. São seus olhos. Não, não tenho medo deles, mas da minha incapacidade de lidar com eles. Quando tento lê-los, são opacos, quando me julgam, transparentes. Por que se escondem? Por que me punem? Não entendo. Devo fazer algo de errado. Erro quando brinco? Peco quando falo? Desiludo-te quando ajo?

Mas será que realmente me importo? Meus defeitos são fato, mas não quero enxergá-los. E não aceito que os enxergue em meus olhos. Prefiro ignorar seus olhares quando estes me atrapalham a te enxergar como quero.
Pode me chamar de fútil se quiser, mas sei que não irá, porque se tem algo que jamais te deixarei ler em meus olhos é ser a sua silhueta o que mais quero. Isso é mais um defeito? Não responda. Se realmente fosse, não mais me quereria. Mas então, o que me resta? Insegurança. Quero avançar. Banhar-te no meu fogo. E só.

Sei, contudo, que almas não são lavadas com tanto fogo quanto insegurança pode queimar. Não há salvação em olhos que não olham, por medo de lentes que distorçam a realidade. O real é tão cru, quando não há calor. É frouxa a ironia entre a verdade crua e o vulcão que nos decepciona por ter ficado tempo demais esperando olhares. Esperamos que o vulcão nos exploda com calor suficiente para não termos medo de ver a realidade. Quero que a fumaça entre nos olhos, mesmo que lágrimas cedam. O mundo aqui é azul, desse jeito.

A fumaça que nos lacrimeja é o que concebo como necessário. É o algo único que nos afeta. Nada mais em comum. Nenhuma outra sensação compartilhada. Pois seus olhares não me afetam como os meus te afetam, e minha insegurança, sei, te queimará mais que o julgar do teu olhar. Mas algo mais pode haver em comum; algo que nos una em uma mesma consequência. Sei que a dissociação poderá nos conjugar. Agora, mudo: deixo a silhueta que desejo em outro mundo. Quero o real cozido pelo calor. Burbulhando escolho: explosão.

Explodindo, enfim, eu sei que desejo nós e lava. Como pureza em atos que despedaçam as piadas de tempo. Aos poucos, fomos atendidos, enquanto fumaça mesmo comia nossos olhos. A lava chegou em nós, e como que se fosse combinado, naquela hora, estávamos tão próximos que parecia desejo. Estava já quase grotesca a cena do final do filme, quando - depois de explodir - a lava unia nossos olhares, soldando os olhos, e a fumaça lavando os óculos, que quase caíram no vulcão. Uma erupção é o que faz explodir e depois crema - a nós, tão frágeis. Das cinzas viemos, em um mundo cinza estamos.

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PJ.