Marilurdes descia as escadas sem nada de diferente ou importante nesse gesto. Era hoje que passaria na agência pra ver como foi a entrevista. Na verdade, não estava precisando tanto assim desse emprego, mas parecia mais como algo pra fazer de tarde. Não ligava tanto pra essa grana. Essa manhã, colocou vestido florido e sandalinha rasteira. Coral tinha dito para ir bem arrumada e causar boa impressão, mas não tinha saco pra isso.
Apertou o botão, houve o barulho, abertou o portão, passou pra fora. Mas sorria, sabe? Talvez esse era um dos gestos a se notar na cena. Abriu a bolsa na esquina mesmo, tirou da carteira dois cigarros, deu um para um molequinho que veio pedir e entrou num pequeno papo com ele. Acendeu para ele, estendendo o braço com o dedo apertado no botão vermelhinho. Ele não sabia muito bem como reagir, Marilurdez gostava de dar essa atenção para deixar as pessoas incomodadas. Sem lição de moral aqui.
- Cê precisa de um trocado? Me fala que vai comprar bala ou pão que eu dou, mas cê é muito novo pra cachaça.
- Não precisa não, tia, só o cigarro tá bom, - hesitou, olhou pro braço sem relógio - tenho que ir ali. Tu é mó gente fina, cuidado ai na rua.
Foi amável, terminou o cigarro ali mesmo e depois continuou andando na mesma direção em que ele estava indo, já lá na frente com as duas mãos pendulando atrás da bunda, o cigarro provavelmente no sorrisinho maroto do garoto. Marilou riu um pouco e pisou numa barata sem nem reparar.
Vibrou ali e tirou da bolsinha o celular, era Coral pra perguntar as coisas de sempre. Com aquela vozinha irritante que nem sabe evitar. Tinha ar de que iria reclamar das roupas como quem fala para bater, mas era só amor.
- Não botou aquele vestido feio, né? E a sandália mais fuleira, aiai, Maria só você. Aposto que nem vai conseguir o trampo desse jeito. Mas tu tem grana, né? Aiai se eu tivesse a sua sorte. Eu sim tenho que traba-- Coral fala mais do que respira, Marilou aguenta, mas nem todo mundo consegue, bora cortar pra quando desliga o celular num "pera, já te ligo de volta".
- Com licença, foi você que deu cigarro para esse garoto? - era um polícia meio gordo segurando o moleque pelo sovaco, com a cabeça abaixada - Porque ele disse que foi e isso é muito errado, meu senhor.
Marlou olhou sem soltear palavra, costumava ter passos firmes, mas hesitou dessa vez. Imaginou Coral dizendo que não chegaria nunca na agência se parasse pra ver toda confusão da rua. O garoto olhou direto nos olhos dela e soltou o sorrisinho maroto de antes. Ela riu pra si, balançou a cabeça negativamente, desaprovando a atitude do homem que distribui cigarro para crianças. Passou por eles num tsc tsc aliviado.
Já era na próxima esquina. Interfone, Maria de Lourdez, vim pra ver da entrevista que fiz semana passada, meu anjo. Barulho e escadas na sua frente. Lá em cima encontrou um banco de madeira, daqueles de três lugares de pracinha, achou bonito e se sentou, cruzando as pernas fatalmente para ouvir que já podia entrar, segunda à direita, no fundo depois do vaso de planta. Não ligou de volta pra Coral, pegou o celular na mão enquanto olhava as portas. Um extintor de incêndio, um quarto azul, uma porta vermelha de incêndio, algumas de vidro, o vaso de planta, a segunda porta, direita.
Coral ligou bem na hora que o senhor entregava um sorriso com envelope pardo, tanto mistério. Pediu desculpas pelo celular, mas que era importante atender. Ficou ouvindo Coral's ladainha enquanto brincava com a aba do envelope, respondia uhum's e uhum's. O homem batucava os dedos na mesa, meio incomodado, mas também parecia uma boa impressão, uma pessoa ocupada, parecia ser sério mesmo. Malourdez soltou um risinho.
- Meu Santo Pai, aposto que cê tá ai na frente do cara, por isso não tá respondendo direito e fazendo o pobre esperar, né? Vou desligar, te vejo em casa a noite, beijos te amo e boa sorte aí.
- Perdão, era meu esposo, ele fala demais.
- Sem problemas, a minha também. - risos. Daqueles cordiais. Lourdinha gostava desse tipo de coisa.
Chegou na frente portão debaixo com o isqueiro na mão e andando apressada. Não sei o que deu na telha, mas com tanto aviso de incêndio no corredor, achou muito lógico acender o vaso de planta, de plástico. Passou pela recepcionista bonitinha com o isqueiro azul enterrado na palma da mão e avisou que tava sentindo um cheiro de queimado.
- Olha lá, mas abre aí pra mim antes. Fui contratada, viu? Começo na quinta feira já, qual seu nome mesmo, meu anjo?
- A-Abigail, pode passar, você é Maria, né? Parabéns, te vejo essa semana. Meu Deus, esse cheiro tá horrível.