Sempre soube.
Ainda vai ficar faltando um lugar pra ir depois dessa viagem. Eu sei que parece legal, mas não sei, é bom aprender a esquecer essas coisas. Tem sangue correndo de volta na minha perna, bate sol no cabelo dela e eu só sigo. Faço um rio vermelho enquanto fico observando. Ela mesma te diz que não sairia com alguém como você. Mas chega um comecinho de tarde sem propósito e sem cheiro e as coisas se complicam numa confusão de sabores.
Tinha um bar na esquina, ainda era cedo, sentei pra ver o jogo enquanto esperava a cerveja bater. Como uma risada que desce de clichês grandes, eu tinha os olhos vidrados na tela e dos pensamentos, o que mais passavam pela minha cabeça era como aquele filho da puta fez aquele gol e estragou meu bolão. Ela chega, roupa simples, sem maquiagem que eu percebesse, o cabelo avermelhado e a personalidade atrás do sorrisinho de óculos. Não era pra ser nada demais.
O jogo continua, mas agora eu me distraio com um homem perguntando o preço do rabo-de-galo, ou o jornal colado na parede. A tela está pra lá, ela está pra cá e eu estou cheio de coisas na cabeça; inclusive o bolão. Ela conversa.
De repente o assunto que era dono do intervalo invade a grande área e o jogo está quase no final. As garrafas ficam embaixo da mesa para ter certeza de que estão contando direito, mas já saíram do alcance da minha carteira. Eu não ligo. Peço mais uma enquanto desço o casco sem cuidado. Caiu no meu joelho e quebrou no chão. A gente no bar riu e desaprovou com os olhos meio bêbados. Em algum ponto pagamos e saímos. Ela fazia parecer filme com trilha sonora até mesmo andar na rua da cidade à noite. E nem estava falando nada.
Estou cuidando do livro desse senhor: coisa de gente velha que resolve escrever tudo sobre sua vida; e ainda tenho coisa de duzentas páginas mal digitadas esperando revisão. Pelo meio do caminho reparei que aquele era o jeito dele se confessar com a família, contando das traições e alguns esquemas - se é que a família vai chegar a ler isso, pelo que conheço dele, vai acabar escondendo. Bem, ela pegou pra olhar as anotações quando abriu meu computador. Dava pra falar sobre trabalho, se quiséssemos. Acho é esse o meu ponto, entende?
Ainda lembro direito da luz que se fechou nos meus olhos naquela piscada; ela curvada sobre o sofá na frente da janela, joelhos dobrados, com o rosto virado para o céu de noite fresca e a calça meio rasgada na bunda. Ouvia-se o som dos tapas menos do que o jeito como ela gemia devagar, acompanhando um risinho. Olhava pra mim de lá sem morder os lábios, mas um meio sorriso habitual me queria ver até onde aquilo iria.
Ficou 2x3 e eu marquei 2x1 no bolão. Eu estava no sofá e de repente isso tinha bastante espaço na minha cabeça novamente. Ela estava vestindo a blusa com respiração forte; tocava alguma coisa no computador. E eu fui falar. Na verdade, falei merda e ela saiu da minha casa com raiva justificada, pedi desculpas um tempo depois e voltamos à nossa relação de trabalho sem sorrisos amarelos, até risadas e baralho; mas nesse sonho mando eu e quando eu a provoquei sobre o jeito de errar a dose do quanto bebia, ela só se exaltou para vir em cima de mim e me chamar de babaca com um beijo sem vontade. Já amanhecia nessa hora, mas se ajoelhou sobre mim e suspirou forte enquanto levantava a mesma blusa. E depois de um tempo saímos juntos de casa.
Na terceira gaveta do meu armário tinha roupa dela, tirou a calça jeans e colocou um short velho, uma camiseta que eu não sabia se era dela. No elevador, olhamos o espelho por um tempo. Eu imaginei fotos, ela viu a sombra do velho do livro em mim. Ela pensava em comer um misto quente com suco de laranja, eu olhava as marcas vermelhas nos joelhos dela.
Eu reparei em como caía a alça da camiseta dela e aquilo me excitava. Bate o sol no cabelo dela e a noite foi como todas as outras. Ela sorria agora porque dava pra falar de trabalho, se quiséssemos. Mas só estávamos indo até a padaria agora. Dá pra levar assim, é confortável. Mais do que eu imaginava. Vou pedir um suco enorme que vamos dividir, ela vai pedir um misto, eu sei, mas sei que não vou comer.
Eu sempre soube.
Agora sei.
