Segunda-feira, Dezembro 19

Agora eu Sei

Sempre soube.

Ainda vai ficar faltando um lugar pra ir depois dessa viagem. Eu sei que parece legal, mas não sei, é bom aprender a esquecer essas coisas. Tem sangue correndo de volta na minha perna, bate sol no cabelo dela e eu só sigo. Faço um rio vermelho enquanto fico observando. Ela mesma te diz que não sairia com alguém como você. Mas chega um comecinho de tarde sem propósito e sem cheiro e as coisas se complicam numa confusão de sabores.
Tinha um bar na esquina, ainda era cedo, sentei pra ver o jogo enquanto esperava a cerveja bater. Como uma risada que desce de clichês grandes, eu tinha os olhos vidrados na tela e dos pensamentos, o que mais passavam pela minha cabeça era como aquele filho da puta fez aquele gol e estragou meu bolão. Ela chega, roupa simples, sem maquiagem que eu percebesse, o cabelo avermelhado e a personalidade atrás do sorrisinho de óculos. Não era pra ser nada demais.

O jogo continua, mas agora eu me distraio com um homem perguntando o preço do rabo-de-galo, ou o jornal colado na parede. A tela está pra lá, ela está pra cá e eu estou cheio de coisas na cabeça; inclusive o bolão. Ela conversa.

De repente o assunto que era dono do intervalo invade a grande área e o jogo está quase no final. As garrafas ficam embaixo da mesa para ter certeza de que estão contando direito, mas já saíram do alcance da minha carteira. Eu não ligo. Peço mais uma enquanto desço o casco sem cuidado. Caiu no meu joelho e quebrou no chão. A gente no bar riu e desaprovou com os olhos meio bêbados. Em algum ponto pagamos e saímos. Ela fazia parecer filme com trilha sonora até mesmo andar na rua da cidade à noite. E nem estava falando nada.

Estou cuidando do livro desse senhor: coisa de gente velha que resolve escrever tudo sobre sua vida; e ainda tenho coisa de duzentas páginas mal digitadas esperando revisão. Pelo meio do caminho reparei que aquele era o jeito dele se confessar com a família, contando das traições e alguns esquemas - se é que a família vai chegar a ler isso, pelo que conheço dele, vai acabar escondendo. Bem, ela pegou pra olhar as anotações quando abriu meu computador. Dava pra falar sobre trabalho, se quiséssemos. Acho é esse o meu ponto, entende?

Ainda lembro direito da luz que se fechou nos meus olhos naquela piscada; ela curvada sobre o sofá na frente da janela, joelhos dobrados, com o rosto virado para o céu de noite fresca e a calça meio rasgada na bunda. Ouvia-se o som dos tapas menos do que o jeito como ela gemia devagar, acompanhando um risinho. Olhava pra mim de lá sem morder os lábios, mas um meio sorriso habitual me queria ver até onde aquilo iria.

Ficou 2x3 e eu marquei 2x1 no bolão. Eu estava no sofá e de repente isso tinha bastante espaço na minha cabeça novamente. Ela estava vestindo a blusa com respiração forte; tocava alguma coisa no computador. E eu fui falar. Na verdade, falei merda e ela saiu da minha casa com raiva justificada, pedi desculpas um tempo depois e voltamos à nossa relação de trabalho sem sorrisos amarelos, até risadas e baralho; mas nesse sonho mando eu e quando eu a provoquei sobre o jeito de errar a dose do quanto bebia, ela só se exaltou para vir em cima de mim e me chamar de babaca com um beijo sem vontade. Já amanhecia nessa hora, mas se ajoelhou sobre mim e suspirou forte enquanto levantava a mesma blusa. E depois de um tempo saímos juntos de casa.

Na terceira gaveta do meu armário tinha roupa dela, tirou a calça jeans e colocou um short velho, uma camiseta que eu não sabia se era dela. No elevador, olhamos o espelho por um tempo. Eu imaginei fotos, ela viu a sombra do velho do livro em mim. Ela pensava em comer um misto quente com suco de laranja, eu olhava as marcas vermelhas nos joelhos dela.

Eu reparei em como caía a alça da camiseta dela e aquilo me excitava. Bate o sol no cabelo dela e a noite foi como todas as outras. Ela sorria agora porque dava pra falar de trabalho, se quiséssemos. Mas só estávamos indo até a padaria agora. Dá pra levar assim, é confortável. Mais do que eu imaginava. Vou pedir um suco enorme que vamos dividir, ela vai pedir um misto, eu sei, mas sei que não vou comer.

Eu sempre soube.
Agora sei.

Sábado, Setembro 24

L'Aforismos XVII

Essa garota tem sido meu puta-que-pariu nessas curvas fechadas.

Quinta-feira, Setembro 22

Das estruturas octaédricas e tetraébrias dos compostos inorgânicos... e suas cores

"- Qual é mesmo o seu nome?
- Você não lembra mesmo? Eu guardei o seu nome."

Ela tinha me pego um colar com a ponta do carisma. Parecia mágica, mas lidava tão certamente com suas palavras e as mãos que quando eu fui reparar, já vestia no pescoço o pingente encantado. Sorriu e acenou para o ônibus que nos levaria. Senti o fio de lã de prata se prender levemente na porta do carro, um puxão e pronto. Dava pra sentar no fundo e fomos sentados. Do tipo de gente que não cala a boca e invade até o silêncio dos bancos em volta. Opa, uma curva fechada vindo, e ficamos sem assunto.
Achei um cartaz semi-ótico que um hippie deixou no vão do viaduto, falando de amor e das coisas que ela gosta. Só de apontar e sorrir o fio se balança. Paramos ali e leu-me em voz alta os endereços e telefones e as propostas coladas pelo muro. Olhamos pixações e um Deus-vírus matando Nietszche. Era como se equilibrar entre dois postes soltos e ter que ir e voltar esse caminho algumas vezes, tudo questão de transitar energia.
O Centro da cidade tem ruas tortas e esse charme noir-sujo que era impressionante. Foram caminhar por lá. Não é do tipo de coisa que se faz todo dia, nem toda semana, mas também não se sabe dizer o motivo. Seria ótimo passar aqui toda semana. As ruas se rolavam e conectavam em vários pontos e passear virava uma busca pelo Minotauro. Pra ela, que nem lembrava meu nome, era a casa do marco central. De certa forma, ela era um minotauro pra mim. Fui desembolando meu novelo pelo caminho pra ver se fisgo uma gata no final do caminho.
Era ela que sorria agora, olhando a porta da igreja e me perguntando se em algum momento eu iria querer entrar. Falava com riso meio sisudo e meio desesperado, como um trauma alegre. Éramos os piratas daquelas ruas que se entravam, subiam e desciam. Ela tava bem no alto do mastro agora, escolhendo a terra pra avistar. Dissemos algumas coordenadas e eu sei que estávamos realmente atrás do rum daquela costa. Andar ali parecia um navio saindo do arpoador, e indo bem longe pra dentro. Estávamos do lado do porto nessa hora.

"- Como a gente se conheceu, cara? Lembro de ter te visto naquele caminho perto do cinema.
- É, e nos apresentaram naquela semana. Tu falou que lembraria meu nome, porque eu não lembrava do teu, mas esqueceu."

Deve ter sido o vento sul ou só a maré batendo forte, mas o assunto voltou numa ressaca impressionante, caímos na água. Fortíssima que a jogou três metros pro alto e me deixou bem lá embaixo no vale da onda. Fingi que não, mas estava bem preocupado se a queda doeria. Falo por experiência. Era bem alto de onde ela me olhava. Na minha cabeça, era inevitável que ela cairia. Mas parece que outra onda me subiu até seu nível e nos levou ainda mais alto. Paramos num cargueiro que estava por lá. Tentei puxar o fio e estava seca.
Dá pra falar de sexo nesse caminho todo, como metáfora geral. As linhas que não se encontram e as várias ruas que se conectam e o vai e vem e a falta de equilíbrio. Os fios e os puxões, as marcas bem deixadas na bunda dela. A gente sorri bastante e ela causa a maioria. É tudo questão de estudar como se comportam as órbitas da gente. Desce em cima da gente, meio que emanando em tudo que é canto, essa luzinha meio púrpura. Tem que ser sobre sexo.

"- O que cê tá fazendo aí?
 - Escolhendo pra onde a gente vai agora"

Era um décimo do que tivemos para fazer no dia todo e nenhuma outra tarde me foi tão bem preenchida quanto essa com ela. No final do meu fio eu tinha uma saída e o resto do novelo roxo. Não fisguei gata nenhuma, mas na verdade nem pesquei com tanto fervor. No final das contas, caímos no mar e essa foi menos surpresa do que eu esperava. Já estava quase começando a novela e eu tinha marcado um carteado para ir em dez minutos. Acho que se olhassem por onde os fios se estruturaram, sairiam uns dez parágrafos mal encaixados. Nessas horas os ônibus chegam assim que pisamos no ponto, a luz roxa ia se apagando e eu ainda acho que ela não lembra meu nome.

Sábado, Setembro 17

Pra fazer Ninho

Puta solão lá fora. Os Passarinhos realmente cantavam; e dessa vez, só para rir da minha cara errando os tiros de fuzil para explodir em penas e tripinhas. Ainda era cedo demais para se levantar da noite passada, mas deixei de reconhecer o sofá onde tava dormindo. Queria te dizer que foi uma noite louca com uísque e mulheres e que era a primeira vez que eu encostava naquele sofá. Bem, eu estou com muito menos glamour esses dias. Passa alguma coisa atravessando a rua e eu vou lembrar do Léo Jaime cantando Sônia com o sorrisinho escroto dele. Vou ficar com isso na cabeça agora, que merda. Não é tão mal, mas eu era do tipo de clichê que falaria de Thelonius ou Chet Baker nessa cena. É por você que eu me perturbo, Sônia. E ainda fui me colar a versão censurada, eu tenho que acertar esses passarinhos ou vão acabar cagando em mim, pelo jeito que as coisas estão indo.
Mesmo assim eu fico com o ar de superior de dentro do casaco grande e quente demais. Vou passando pelas pessoas que passam suas estórias sorrindo, é sábado sete e pouco da manhã, porque alguém estaria na rua e não sorrindo? Esse é um bairro legal, eu devia vir pra cá logo, arrumo um lugar pequeno e enrolo um aluguel ou outro, ao invés de pegar um carro lotado agora, se parar. Chego perto da esquina e vejo um ônibus passando, certo de que é o meu. Dobro, ainda tenho umas duas quadras para andar, reto. Se eu tivesse quebrado na rua anterior andaria a mesma coisa, mas não ia ficar com essa pontada de ansiedade aqui, vai passar outro ônibus, bem vazio, tipo um motorista que saiu atrasado ou adiantado e o outro foi pegando todos os pontos cheios. Só que eu ainda estou chegando no ponto, vou perder essa boca, quer ver?
Ninguém no ponto. Aquele que passou era meu ônibus mesmo, sempre tem um monte de gente pra subir. Vou encostar aqui com a japona e parecer um mendigo, ou alguém que entende de jazz, ou um meio bêbado com problemas da noite passada; mas vou parecer legal. É, eu achava isso mesmo. Não, cê não pode rir disso, todo mundo encena alguma coisinha se achando muito bom personagem de alguma coisa alguma hora. O negócio é que a graça acabou há algum tempo, e eu ainda me acho legal de ser o meio bêbado apoiado na placa da parada de ônibus.
Chegou um. E parou. Como sempre, um monte de gente se apertando na primeira porta e mais pra trás eu até acho cadeira vazia. Acenei pro cara com uma menina no colo, ele veio se sentar e eu nem precisei ceder o lugar. Esperava que ele não fosse agradecer e engatar um papo sobre qualquer coisa ou bons modos na cidade. Valeu.
Puta vontade de molhar pão com manteiga no café com leite. Devia sentar na padaria mesmo e deixar eles lavarem a louça depois. Dei uma volta a mais para achar o lugar, que sempre muda de rua quando eu procuro, e tinha um desses pais de família com o direito adquirido de ir ler jornal em público com um short, chinelo e mais nada além da enorme barriga, o orgulho da exposição e as cicatrizes de vida trabalhadora de classe média-alta. Melhor comprar o pão e ir pra casa. Preciso de leite também. Bom dias e obrigados quando eu queria dizer "que tem de bom" e "de nada". Ainda tem passarinho e Léo Jaime cantando em alguma árvore e meu olhar calibre 44 não faz tripas. Aqui eu paro e rio porque poderia ter dito olhar 43. A mulher na rua achou que sorri pra ela e fez cara feia.
Outra rua pra atravessar e eu vou andando numa diagonal bem lenta que eu finjo que é para aproveitar o espaço e não para ver se um carro entra desembestado duma rua qualquer e me tira a opção logo do café com pão. Ou tira as músicas da cabeça. Na rua seguinte vejo uma pickup daquelas vindo longe. Eu estou no meio da rua e sinto palpitar na minha mão livre, que levo ao lado da coxa como que para sacar minha arma pro duelo; espertamente disparo com o fuzil mais uma vez, deixando a bicha embasbacada com tamanha sagacidade, ainda que o tiro tenha passado de raspão, 4x4 entra na próxima a esquerda, fugindo da disputa chifre a chifre que eu travaria em seguida. Às vezes acho que se eu entrasse numa avenida enorme e bem movimentada só para me matar atropelado, causaria acidentes e frenadas gostosas de ouvir, três mortos e muitos feridos, e sairia ileso, menos na moral.
Posso subir e me jogar do prédio também, se a coisa toda é suicídio, com sorte caio em cima da árvore com os passarinhos assôniando. Acontece que se matar tem que ter graça e cair é legal, mas morrer subindo sempre me pareceu mais interessante. Bate um carro a mil bem acima da minha patela e eu sou arremessado quase duas quadras, rodopiando numa parábola que dá até para cair no vestibular do ano que vem, decido morrer bem no vértice e se tiver força para fazer uma pose acho que seria o superman bem nessa hora. A água sempre ferve sem eu reparar e alguém disse que é para tirar pro café antes disso. Dessa vez ela nem tá fervendo, tá no ponto certo, desligo o fogo e olho pra dentro. Volto e deixo ferver, meu café sempre saiu bom.
Quase não tem manteiga, se chegasse aqui e tivesse nada ia ser um saco. Leite desnatado, nem reparei, mas deve de ser melhor. Cheiro de café que vai lembrar os problemas das mulheres de ontem, quase como se nem fosse sábado mais. Tive várias idéias no caminho de casa. Fico pensando que os anos a mais que eu tenho não têm me servido de muita coisa porque eu esqueci de crescer, devia fazer um personagem assim. Vou levar o café pro quarto, colocar Chet Baker e dane-se o Léo Jaime finalmente, e vou escrever. Porra, o pão e o café acabaram e eu nem molhei um no outro. Quase não dá pra ver a tela por causa da janela aqui do lado.
Puta solão lá fora.

Segunda-feira, Setembro 12

Conto da Cocaína I

Marilurdes descia as escadas sem nada de diferente ou importante nesse gesto. Era hoje que passaria na agência pra ver como foi a entrevista. Na verdade, não estava precisando tanto assim desse emprego, mas parecia mais como algo pra fazer de tarde. Não ligava tanto pra essa grana. Essa manhã, colocou vestido florido e sandalinha rasteira. Coral tinha dito para ir bem arrumada e causar boa impressão, mas não tinha saco pra isso.

Apertou o botão, houve o barulho, abertou o portão, passou pra fora. Mas sorria, sabe? Talvez esse era um dos gestos a se notar na cena. Abriu a bolsa na esquina mesmo, tirou da carteira dois cigarros, deu um para um molequinho que veio pedir e entrou num pequeno papo com ele. Acendeu para ele, estendendo o braço com o dedo apertado no botão vermelhinho. Ele não sabia muito bem como reagir, Marilurdez gostava de dar essa atenção para deixar as pessoas incomodadas. Sem lição de moral aqui.

- Cê precisa de um trocado? Me fala que vai comprar bala ou pão que eu dou, mas cê é muito novo pra cachaça.
- Não precisa não, tia, só o cigarro tá bom, - hesitou, olhou pro braço sem relógio - tenho que ir ali. Tu é mó gente fina, cuidado ai na rua.

Foi amável, terminou o cigarro ali mesmo e depois continuou andando na mesma direção em que ele estava indo, já lá na frente com as duas mãos pendulando atrás da bunda, o cigarro provavelmente no sorrisinho maroto do garoto. Marilou riu um pouco e pisou numa barata sem nem reparar.

Vibrou ali e tirou da bolsinha o celular, era Coral pra perguntar as coisas de sempre. Com aquela vozinha irritante que nem sabe evitar. Tinha ar de que iria reclamar das roupas como quem fala para bater, mas era só amor.

- Não botou aquele vestido feio, né? E a sandália mais fuleira, aiai, Maria só você. Aposto que nem vai conseguir o trampo desse jeito. Mas tu tem grana, né? Aiai se eu tivesse a sua sorte. Eu sim tenho que traba-- Coral fala mais do que respira, Marilou aguenta, mas nem todo mundo consegue, bora cortar pra quando desliga o celular num "pera, já te ligo de volta".

- Com licença, foi você que deu cigarro para esse garoto? - era um polícia meio gordo segurando o moleque pelo sovaco, com a cabeça abaixada - Porque ele disse que foi e isso é muito errado, meu senhor.

Marlou olhou sem soltear palavra, costumava ter passos firmes, mas hesitou dessa vez. Imaginou Coral dizendo que não chegaria nunca na agência se parasse pra ver toda confusão da rua. O garoto olhou direto nos olhos dela e soltou o sorrisinho maroto de antes. Ela riu pra si, balançou a cabeça negativamente, desaprovando a atitude do homem que distribui cigarro para crianças. Passou por eles num tsc tsc aliviado.

Já era na próxima esquina. Interfone, Maria de Lourdez, vim pra ver da entrevista que fiz semana passada, meu anjo. Barulho e escadas na sua frente. Lá em cima encontrou um banco de madeira, daqueles de três lugares de pracinha, achou bonito e se sentou, cruzando as pernas fatalmente para ouvir que já podia entrar, segunda à direita, no fundo depois do vaso de planta. Não ligou de volta pra Coral, pegou o celular na mão enquanto olhava as portas. Um extintor de incêndio, um quarto azul, uma porta vermelha de incêndio, algumas de vidro, o vaso de planta, a segunda porta, direita.

Coral ligou bem na hora que o senhor entregava um sorriso com envelope pardo, tanto mistério. Pediu desculpas pelo celular, mas que era importante atender. Ficou ouvindo Coral's ladainha enquanto brincava com a aba do envelope, respondia uhum's e uhum's. O homem batucava os dedos na mesa, meio incomodado, mas também parecia uma boa impressão, uma pessoa ocupada, parecia ser sério mesmo. Malourdez soltou um risinho.

- Meu Santo Pai, aposto que cê tá ai na frente do cara, por isso não tá respondendo direito e fazendo o pobre esperar, né? Vou desligar, te vejo em casa a noite, beijos te amo e boa sorte aí.

- Perdão, era meu esposo, ele fala demais.
- Sem problemas, a minha também. - risos. Daqueles cordiais. Lourdinha gostava desse tipo de coisa.

Chegou na frente portão debaixo com o isqueiro na mão e andando apressada. Não sei o que deu na telha, mas com tanto aviso de incêndio no corredor, achou muito lógico acender o vaso de planta, de plástico. Passou pela recepcionista bonitinha com o isqueiro azul enterrado na palma da mão e avisou que tava sentindo um cheiro de queimado.

- Olha lá, mas abre aí pra mim antes. Fui contratada, viu? Começo na quinta feira já, qual seu nome mesmo, meu anjo?
- A-Abigail, pode passar, você é Maria, né? Parabéns, te vejo essa semana. Meu Deus, esse cheiro tá horrível.

Quarta-feira, Agosto 17

Pinophyta: Extra #2



Era pra falar de flor de novo, de se perder no campo e como que por brincadeira não achar a volta. Vinha vento de lá e a volta era na barra do vestido dela. Dessa vez o campo era enorme e fazia umas cores de céu de Van Gogh. Ela não corria mais que o tempo. Tinha azul subindo pelos tornozelos a cada batida forte dos calcanhares no cascalho, tinha verde descendo nas coxas assim que ela terminou de cair sobre o campo, vendo o sol lá em cima e sorrindo bem branca e vermelho. Ela se ergueu um pouco, apoiada nos cotovelos.
E sorria só em vermelho.
- Tive essa idéia no banho uma vez, e esse lugar é perfeito.
Tirei de lado uns gravetos e me abaixei nos joelhos enquanto ela desatava um laço na alça do vestido. Tudo era vento nela.
- Vamos fazer?

Foi quase aí.

Ainda abaixado, fui me aproximando do risinho. Debaixo daquele céu todo branco, o campo ia mudando de cores e volteios em órbitas grossas de cor. Parecia sonho porque nem ela nem eu estranhávamos o chão.
Seu joelho se dobrou quando o pescoço se jogou pra trás. Não dava pra ver, mas ela tentava morder o céu que podia ver. Com o vento como mãos, seu vestido era nada. Pingava alguma coisa do céu.
A bunda dela estava sobre algumas flores. Agora sentada eu via o girassol esperando todo o peso se ir.

Ela riu, e foi aí.

Todo o vermelho e laranja e o ar se deslocava com a violência exagerada quando se soltava a flor dela. Havia chuva e havia barulho, ela corria olhando as cores, ainda que sempre lindas e bem fortes, dava medo.
No fundo quase no final eu via vindo a fila de gritos e explosões, todo o campo ficou branco.
Todas as flores soltaram quase que arremesando suas pétalas.
Tudo subia, o céu fechava e eu a seguia de perto, as bocas ainda abertas e o barulho ainda era grande.

Eu tinha o girassol nas mãos, ela andava mais calma agora, terminando de refazer o laço do vestido.

Sexta-feira, Julho 22

prosapoética roubada

Abri a janela e veio um cheiro forte e um recado atropelado listando

trigo alface beringela, cenoura batata carne moída peixe assado e frito espinha na boca e liberta o grito da cenora cortada em tirinhas, pepino fatiado em linhas escaupelo o tomate... cura a ferida com o tomilho e enfeitando um supremo de frango com milho.

Eu achei que a vontade de cozinhar tinha virado meu passatempo, mas depois disso essa recado ainda repete e me impressiona...