sexta-feira, dezembro 14

Isto dá-se

O poeta que traz sua poesia
é um desinfeliz descompleto e desmorto.
Merece a vida à mercê da vida
e obra.






--
Tá, eu sou chato, mas ele não. Vejam a última, sim?

Esclerose embrionária

Ao nascer
  Fui acometido de um humor brando,
     anti-melancólico, branco
        limpo,
                           nauseabundo, idiossincrático
   líquido, aguado, transparente,  translúcido:
Aquoso. Vítreo.
    E então consegui ver tudo.






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Ok, esse é o tipo de poema que eu adoraria se vocês entendessem o lado "cursinho-pré-vestibular" intrínseco.

Mein Kampf

Se eu
vestido de Karl Marx
vejo a luta de classes

Então

Se seu
vestido cai mais
encaro a luta de faces.

terça-feira, novembro 20

Projeto: Tradução

Só fá-lo-ei:
Bem longe.



-
E os outros poemas merecem outros dias.

Concretos #1

Cara, o concretismo
anda tão gasoso...
                   aéreo; vapor;
    Abstrato.
Muro de fumaça, bicho,
Ninguém derruba, não!

sábado, outubro 13

A garrafa

Hoje eu decidi que vou jogar a garrafa no mar. Não quero destruí-la, mas guardá-la como guardei eu já não posso, e nem posso abrí-la para beber mais. Jogarei-a no mar. Ficará flutuando e degradando-se aos poucos. Eu sei que não é a melhor forma de resolver o problema, mas o mar é uma tentação sem igual. Pode ser que isso prejudique o mar, se eu não tirar a garrafa de lá a tempo.

No meu mundo, o conteúdo da garrafa nunca irá se dissipar, enquanto permanecer dentro da garrafa. Se um dia a garrafa se desfizer no mar, o líquido viciante tornar-se-á parte do mar. E a quantidade que irá se dissipar é tão grande que o mar todo vai se encher com o prazer que isso representa, mas o mar nunca mais será o mesmo.

Este sentimento aqui é como uma garrafa de Coca-Cola (desconsiderando a imagem do capitalismo que essa marca representa). Quem vê de longe fica com vontade de chegar perto e pegar um pouco. Quem conhece o que há por dentro, sabe como é gostoso. Mas por causa da forma como surgiu, acaba fazendo mal.

O meu mundo concebeu a Coca-Cola perfeita. Sem o peso da culpa por causa do capitalismo onipresente, sem os malefícios da composição química, com gelo, muito gelo. Mas a ocasião fará a bebida. Por enquanto ela está dentro da garrafa dentro do mar e contém a mensagem mais importante do mundo.

Um dia, um de nós dois - eu ou o mar - vai experimentá-la e portar a mensagem, mas eu já conheço a mensagem e o prazer da bebida. Entretanto entre tanta alternativa, afinal no final eu sou um rio desde o começo, desembocando tudo que eu sei no mar, tudo que provei, tudo que fiz, tudo. O mar me conhece, está dentro de mim e compartilha meu vício.

A decisão está tomada, a garrafa vai flutuando no mar, vence o tédio relendo a mensagem que carrega e aos poucos vai se degradando. E só me resta dizer uma coisa: eu quero um drinque.

terça-feira, outubro 9

Em último caso, Trepanação

Acenderam as luzes, prepararam os instrumentos, limparam tudo, uma hora para o paciente chegar. Os enfermeiros estão ansiosos, mas ninguém viu o cirurgião. A operação é arriscada e só ocorrerá em caso de emergência, mas estão esperando preparados para alguma emergência.

O paciente entrou. Os enfermeiros envergonhados analisam o estado do paciente enquanto o médico não chega. O tempo passa e está tudo normal, nada de novo.

Entrou o médico no salão principal, ele chegou como música e o paciente o viu. A frequência cardíaca diminuiu e logo em seguida aumenta bruscamente. Temos um paciente ansioso, ele geme que quer ser operado hoje mesmo. E o tempo normal foi extinto e ninguém saberá quanto vai demorar até que acabe a cirurgia. "Vamos doutor..."

"Levem-no para a sala de cirurgia."

Diagnóstico rápido e operação precisa, plano estabelecido. Tudo ocorre como um jogo de cartas: alguns trunfos do paciente, alguns blefes impacientes, uma descoberta do médico, uma revelação, mas o paciente só ouvia o silêncio quebrado pelo apito do aparelho de eletrocardiograma.

Certo, hora e meia depois do início (deu para contar) e o paciente estava com uma cara ótima.

"Tudo correu ligeiramente bem. Tentou-se um transplante, a princípio, mas achei que os nossos organismos não estavam preparados para isso, preferi manter as coisas como estão. Entretanto, consegui reaver o bom funcionamento do sistema cardiovascular, que parecia ter vida própria! Guardei uma parte do tecido cardíaco como recordação, não fará falta ao paciente, mas me deixará feliz. Em resumo, a operação fracassou, digo, não houve operação; depois de aberto, eu só olhei o que havia de errado (e eu não esperava que fosse aquilo), então bastou uma massagem no ego e um pouco de adrenalina e está tudo bem. Ele está pronto para uma próxima! Obrigado."


Cumprimentaram-se cordialmente e se despediram. O médico saiu e o paciente tentou dizer outra coisa, mas ele não ouviu, foi para casa. Dormiu impaciente querendo que o médico soubesse.

"Foi literalmente uma injeção de ânimo. Eu voltarei ao hospital algum dia para o transplante, por enquanto só virei aqui para diagnósticos e um pouco de atenção. A anestesia foi ótima, mas eu não dormi. Pude vê-lo guardando, em um vidrinho, um pedaço de carne, não sei o que era, mas o médico parecia bem feliz com aquilo. Eu sei que ele ainda pensa no transplante. Mas essa realidade não está próxima."

Agora ele irá procurar pelos becos ou ruas ou casas por alguma dose grátis de ânimo. Já sabe que o futuro foi para longe o suficiente para ser pensado só depois.

"Vou abrir a cabeça para arejar um pouco."

-
Ah, não perguntem.
Mas primeiro... Trepanação.

sábado, outubro 6

Fábula semi-poética (ou patética) à duas mãos

Era uma vez dois olhos azuis pulando no rosto dela,
aí veio um Gato e 'rancou os olhos dela.
E comeu, o Gato, aqueles dois olhos azuis dela,
depois vomitou, o Gato, os olhos azuis dela.

Ela, sem olhos azuis, decidiu pegar os olhos amarelos do Gato,
aí ela, tateando, sem querer, 'rancou as bolas do Gato.
Com dor, os olhos amarelos saltaram de cima dos bigodes do Gato.
depois veio um Gavião e comeu os olhos do Gato.

Condor de olhos pretos atacou o Gavião no ar e fez cair os olhos dele no chão,
e os dois caíram na porrada e o condor esfregou o nariz do Gavião no chão.
Com dor, o Gavião gritou rouco e pouco e bateu as asas, mesmo no chão,
e o Condor estrangulou o Gavião até as tripas se espalharem no chão.

Voltou o Gato sem bolas e procurou seus olhos nas tripas do Gavião,
como não achou, 'rancou a moela do Gavião.
E Ela, por ali passando com as bolas do Gato na cara, não viu a morte do Gavião,
tropeçou, caiu e morreu nas tripas do Gavião.

O Gato, então, tirou os olhos pretos do Condor para poder ver o enterro dela,
mas ninguém fez o enterro dela.
Porque sonhou Ela assim, com dois olhos azuis dançando no rosto dela,
e acordou com tripa de Gato, olho de Gavião e bigode de Condor na cama dela.

Moral: 'Rancar rancor de gato preserva as cores da TV.

-
Porque é divertido.

domingo, setembro 23

Tempo

1s.
2s.
3s.
4s.
5 seg.
6 seg.
7 seg.
8 seg.
9 segundos.
11 segundos.
12 segundos.
13 segundos.
14 segundos.
15 segundos,
Eu perdi a paciência no segundo.



--
Dá um tempo, vai? Projetos tomarão meus poemas bobos de vinte segundos.

sábado, setembro 15

Cronocida #1

Desmembrando-a por completo, sorveram seus poros o sangue que respingava. Um, dois, dez, quinze golpes e essa parte do trabalho terminará. Sentou-se para esperar secar o que escorria de seus braços e pernas, seu corpo exibia manchas do sangue seco. Foi limpar e lixar o que havia cortado.
Não há cansaço suficiente que sirva de motivação para parar. Em cada parte que lixava e limpava, rubricou para que os compradores tenham certeza da qualidade. Seu suor tornou ácido o cheiro do sangue todo. Foi tomar banho.

- Táxi! - entrou - Central park, por favor.

Carregou a bolsa pesada através da grama fosca, avistara o comprador; um senhor alinhado com um chapéu excêntrico e um broche de bandeira, parecia um sábio senhor.

- Senhor...?
- Orlock, Orlock é o suficiente. E como lhe chamo?
- Erzebeth Bathory, mas pode usar Liz.
- Nada mais cabível, minha Condessa.
- Igualmente, alteza.

Riu-se entre seus seios da beleza que o momento gerou. Central Park seria o novo condado. O conde, obviamente, comprou o pescoço e uma das mãos, olhou com gosto para o busto, mas quis levar a cabeça. Entretanto, as cabeças têm um comprador exclusivo.
O conde a levou em casa e foi-se sem demorar, ansiedade nos olhos dele. Normalmente voltaria de táxi ou metrô, mas aquela sacola aceitou a carona. Cabeças, cabeças, cabeças. Ora vejam só, Conde Orlock quer cabeças também? Pelo visto precisa mesmo de algum cérebro.
Não há risadas macabras dentro de sua casa, só dentro do seu sorriso singelo. Bathory, eternas ruinas. Foi procurar mais mercadoria pelos arredores, era bem possível que houvesse. Algumas coxas interessantes, uma orelha maravilhosa, aqueles olhos valeriam a pena!

- 50, querida, mas só um pouquinho. - ouviu sem prestar atenção, mas consentiu.
- 50 está ótimo por esses olhos. - sorriu para o elogio sem graça.

Há quem goste de pepinos em conserva, alguns preferem batatas ou pimenta. Já vi cenouras e inclusive umas ervas em conservas. Vi óleos semi-rubros dando sabor à tubérculos insossos. Mas aqui há olhos em líquidos trasnparentes dentro de vidros bonitos. Há mais conservas estranhas formando uma platéia muda para a arte que ocorria e ocorreria e ocorrerá.

- Sim, tenho uma nova aqui, só que as pernas estão danificadas... Não, sim, me distrai um pouco - e riu - Sim, são lindas. A propósito, estou olhando-as agora. Eram tão macias. Acredite, eu adoro meu trabalho. - mais risos - Ah... Uhum... Tudo bem, chego em quarenta minutos. Tchau... Outro. - e desligou, tomou outro banho, arrumou outra sacola e saiu de casa.

- Táxi! Central Park, por favor.
- Sim, senhora.

sábado, setembro 8

Prelúdio

- Respeitável público! - bradou e seguiu o discurso do resto da noite. As linhas vermelhas curvaram-se nos semblantes dos palhaços e das pessoas. Pendiam tiras de carne nos trapézios que balançavam. Pirueteavam os bailarinos e os leões rugiam à majestade abstrata: o mágico na mágica magia circense.

Esta noite terminou como as outras, e as próximas também terminariam. Os anos terminavam em retos trajetos castanhos-tédio. A lona perdia a cor no discurso decorado e enfeitado do narrador. Circo cíclico. Repetiu o espetáculo, e os fogos fogueteavam novamente.

Sabia, no entanto, que seu incêndio haveria de chegar algum dia. Desejou uma faísca como quem deseja alguém. O diâmetro do picadeiro correspondia ao seu vício, exponencialmente, o tédio faria falta, se tudo finalmente queimasse. Circos não mais, foi procurar algo melhor, algo diferente. Partiu sem fogo.

O que faria um ex-picadeirista na urbanidade mecanicamente teórica? Até a prática era teórica. Acende a luz, anda, pára, roda, acena, sobe, espera, paga, gira, senta, levanta, aperta, desce, pára, apaga a luz, anda, chega, aperta, chama, basta. A cidade maquinava maravilhosamente, Os gritos e ruídos desordenados caiam na harmonia dos prédios altos e cinzas antes do céu espesso. Não há tédio no caos.

Copia, imprime, traga, acende, traga, volte na segunda-feira por favor, senhor, acende outro, traga, anda, pára, pede, compra, bebe a água, suspira, saboreia, bebe, joga no lixo, anda, vaga, olha, chama, anda, Pare!, pára, levanta a mão, entrega, raiva, pensa, desiste, parte. Pede, acende mais um, traga, Obrigado.

E o segundo dia vagueou assim, sem dinheiro, força-motriz do maquinário indiscutivelmente emocionante. A segunda-feira chegou no cinza da maravilha nova. Segundo ele próprio, o bem veio de volta para a vida, chutando o tédio, havia saudade, contudo.

Chegou segunda-feira. Cotidiano para Carlos seria cravejado, começou como começam cócegas em crianças, cotidiano sonoro. Ah, grande luz bonita e engraçada. Voltou.

- Trouxe, está tudo certo?
- Sim, gostamos dos seus papéis. Quer assinar contrato conosco?

Sorri, feliz, sorri, aperta a mão, sorri, pega a caneta, clica, desclica, clica, desclica, clica, assina, assina, assina, Aqui também, senhor, assina, sorri, desclica. Abre a porta, anda, acende, fecha a porta, traga, traga, tosse, traga, apaga, abre a porta, entra, fecha a porta, sorri.

- Quando posso começar?
- Entregue segunda-feira.
- Já?
- A próxima. Dá tempo?
- Claro, obrigado.


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Será?

quarta-feira, agosto 29

Histórias de Coquetel #4

Seu nome, otimismo irregular. Planejou, a cada passo, quais imagens lhe penetrariam o córtex e quais terminais nervosos subcutâneos lhe seriam estimulados. Anatomicamente correto, desceu abrupto as escadarias cor-de-chuva, trovejando sua fronte nos becos que apareciam.
- Não há amor ou vontade que não possam ser criados a partir de um ego passivo. Eu crio meus amores para matar o tédio sobrehumano dessa suburbanice calamitosa - niilista por glória e devoção.
Irrompendo a cortina "noir", desceu das nuvens para molhar o chão, a gota trêmula, mas caiu sobre os mocassins parados. A chuva precedia seu sorriso, teria de precedê-lo. Sem notar, ficava feliz na chuva, acreditava no sol posterior e póstumo, inevitavelmente. E chovia dentro dele, expurgando o sal de seu corpo, escorrendo-o pelo queixo, mas nada tão inteligente.
- Eu vejo as coisas que me cercam e me secam a boca com a secura de seus gestos. Eu sinto o respirar forte e o hálito quente dos monstros que eu imaginei. Eu ouço os sorrisos dos sátiros em suas noites comumente longas e cheias, ocre o suor.
Nascendo pela porta amarela do táxi, pagou e foi viver no Central Park. Girava alta a felicidade engraçada que jogavam sob o sol esperado, uns para os outros em ciclos tediosos que coloriam o ambiente. Ciclistas pairavam sobre a grama, fluíam no verde e na terra e a Terra rodava menos que suas rodas.
- Odiosa a repetição idiota que me ronda, tudo gira, tudo roda e tudo volta para o início, girar não movimenta; isso tudo me enjoa. Serão sempre tontos e não perceberão o que estão fazendo, mas só enquanto tudo rodar. Tudo roda à minha volta, conheçam-me, sou eu.


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Eu deveria prestar mais atenção às aulas, mas assim não haveria blog.

sexta-feira, agosto 24

Histórias de Coquetel #3

Num meio-dia qualquer, deixei que o vento batesse na janela. Não era comum que eu me deixasse levar pelo vidro decadente, mas a condição favorecia, não quis o vento quente desse meio-dia. Cesse. Séssil. Movimento inabalavelmente nulo, consequentemente inerte. Graforréia.
No meio do desastre vermelho que ocorria no horizonte: a maior estrela cadente que já vi; sorri, mudo, para dois mundanos pássaros que me vigiavam do poste. Minha tarde foi-se caindo e sumindo e caindo. Azulando um duplo-sentido. Duplo. Bifurcado como os pássaros insistentes.
Nomeio o anoitecer meu amor, a maior das belezas benquistas, benvistas, benvindas. No meio da noite, não há pássaros, nem vermelho, só o azul seco que aprumava-se numa cinza úmida, sob o abismo urbaníssimo, digo, suburbaníssimo.
O dia foi passando e passou, a noite cessou seu movimento, a inércia saiu das minhas leis, o tempo perdeu seu espaço e fiquei a vagar no minuto que envolvia meus sessenta segundos risos.
Saí do vidro. Segurei a velha xícara rachada com café. Sorvi, sorrindo, soía.

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E o que seria noigandres para mim? É a personificação da graforréia.
Fui ao dicionário ver se achava alguma definição para graforréia, nada. Fui ao google, e lá parece ter um projeto musical com esse nome, não é a mesma graforréia, a minha é a livre vontade e expressão de escrever e de se exprimir, me exprimir, pra ser sincero. Graforréico.

quarta-feira, agosto 22

E onde fica o toddy?

Noigandres

Vejo vermelhos, verdes, blaus, brancos, cobaltos
Vergéis, plainos, planaltos, montes, vales;
A voz do passarinho voa e soa
Em doces notas, manhã, tarde, noite.
Então todo o meu ser quer que eu colora o canto
De uma flor cujo fruto é só de amor,
O grão só de alegria e o olor de noigandres.


Arnaut Daniel - traduzido por Augusto de Campos.

Noigandres

"(...)
Não que eu pudesse cantar-lhe a música,
E ele disse: 'Não sei meu senhor, isto é
Sim, Doutor, o que querem dizer com noigandres?'
E ele disse: 'Noigandres! NOIgandres!
Faz seis meses já
Toda noite, quando vou dormir, digo para mim mesmo:
'Noigandres, eh, noigandres,
Mas que DIABO quer dizer isto!'"


Haroldo de Campos


Noigandres é necessário.
Noigandres como sementes e como verde, mas não te abales, Noigandres é o antídoto do tédio.

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Eu achava que eram cirsântemos ou Hair, ou voar ou toddy... não sei.

terça-feira, agosto 21

Prima Prosa Azul

Que o cansaço que o cansa, canse.
Que a sonolência que o envolve, incolor,
Queira ir-se embora doente, câncer
Que queima a sorte de sorrisos, indolor.

Que uma curva forte me desestabilize, quebre
Queda leve e sem som, caindo sombras no muro,
Que não desaparecem no medo ou ímpeto da luz, febre
Que desce como forte chuva no telhado, e o escuro.

Quero que o frio goteje em mim, incessante,
Quando não houver mais água, lactante.
Quando não houver mais fonte, esterilização
Quando não houver mais refúgios para uma rima forçada.

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Estou com a sensação de ter estragado.

segunda-feira, agosto 20

Aristego

Sói eu querer esquecer tudo, mudar tudo e deixar de me reconhecer naquele maldito espelho oval. Uma nova expectativa, uma vontade mais ativa do novo, de querer não parar nunca, de não desejar de novo. Sólido desproporcional, disforme, informal, cadente, carente, inconspícuo, indesejado, irritante, egocêntrico, egoísta, volátil, volúvel, volte... Hoje o mar fez ondas feito criança, feito criança que não sabe andar na areia fofa, cai e ri. Inocente como salmões rio acima, crus, decepados, fatiados.

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Oh Suzie Q, Suzie Q maybe I love you, Suzie Q...
Não pergunte, leia de novo.

sexta-feira, agosto 3

Deduções

Eu e ela tínhamos uma idéia divertida, eu e ela nos divertimos com sorrisos. Eu e ela tínhamos uma grife, vendíamos roupas, eu e ela ganhávamos dinheiro com as roupas. Eu e ela gostávamos de fazer roupas, eu e ela nos divertíamos com as roupas. Eu e ela vimos a grife despencar e falir, mas ainda conseguíamos sorrir, eu e ela nos divertiríamos sem as roupas. Eu e ela arrumamos outros empregos, eu e ela ganhávamos dinheiro sem as roupas.

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Tranças e roupas me interessam, me iiiiiinteressam.
"Teu corpo com amor ou não,
Raspas e restos me interessam.
Me ame como a um irmão,
Mentiras sinceras me interessam..." :)

quinta-feira, agosto 2

Mea Culpa

"Pode-se sentir saudade de muita coisa: de alguém falecido, de alguém que amamos e está longe ou ausente, de um amigo querido, de alguém ou algo que não vemos há imenso tempo, de alguém que não conversamos há muito tempo, de lugares, de comida, de situações."
Saudade, a sétima palavra mais difícil de ser traduzida *¹*. Não me queiras, saudades, esqueça-me.

Esquecer se trata de perder as lembranças, a memória. Disseram-me que memória é o conjunto de funções psíquicas pelas quais temos consciência do passado como tal, que inclui a fixação, a conservação, a lembrança e o reconhecimento dos acontecimentos. De início eu revoltei-me abissalmente, minhas lembranças são muito mais que isto, elas não cabem entre duas ou três folhas de papel, não valem apenas as notas verdes, azuis ou composições binárias incolores. Então eu decidi pensar outra vez.

Fixação é o apego exagerado, doentio, a uma pessoa ou a uma coisa. A fixação compõe quaisquer lembranças, desde o aniversário sétimo que eu não tive, até a décima oitava faixa do CD que eu não tenho. Eu sou fixação, sou fixo, afixado, fichado e lacrado. Eu sou minha memória, e apenas sou, conseqüentemente, a fixação faz parte de mim.

Conservação sempre me intrigou, magoou, e irritou, a não ser dentro dos museus de cera das vontades inacabadas do Vincent *²*, pobre diabo que morreu antes de saber seu preço. Conservação mantém-me preso às memórias, conservação ata-me a mim mesmo, afixa-me na mesma ladainha.

Lembrança, memória, tudo o que eu disser soará como auto-flagelo, auto-biografia, auto-retrato, metalinguagem.

Reconhecimento dos acontecimentos me sugere exatamente a dose exata de cacofonia barata de que eu preciso para manter-me tão saudosista daquele meu futuro promissor como agente do cartório sem pena, sem pena e sem dó de perder a cabeça. Uni-vos.

Eu precisava colocar a minha cabeça no lugar para perceber que meu muro não será destruido comigo em cima. As bombas são minhas, as armas são minhas, os gritos são memórias de algum axiônio destraído. Eu mantenho-me preso ao tango e aos cavalos, mantenho-me preso ao casaco e ao sapato, ao cabelo e ao pescoço. Tudo por culpa da memória, das lembranças, das memórias, do telefone que me lembra de acordar. Dos bilhetes que me esqueço de ler.

Afirmo que a memória é sim o conjunto de funções psíquicas pelas quais temos consciência do passado, com prazer em repudiá-la, cruel, cruelmente.  Sói sermos sóis, sois seus, somos simples sóis nossos. Eu e ela somos nós, eu sou a memória que é ela que é.

Destarte descarte todas as metáforas, continuaria confuso com minhas palavras, sete vezes confuso, cinco sonhos difusos. Aquele que tem entendimento, calcule o número da casa onde quero ir, pois este número é número do homem, por medida da ironia, não me lembro mais do endereço de onde quero ir, mas sei que chama-se Lacuna Inc. *³* , tem algum trem que passa lá perto? Tem algum ponto final lá perto?


--
Estou ionizado, por isso as metáforas andam tão perto. ;D
Eu usei uns dez sites para tirar a base para este texto, além de usar o que eu tinha na memória.
Sói >>> Soer = Costumar

terça-feira, julho 31

Coincidindo

31 de Julho, 31º post.
Feliz dia do orgasmo, celebrem. Ando frio, frígido, obrigado, juro que não é por opção.

sábado, julho 28

Fragmento #1

"(...)Acho que eu sou uma pessoa extremamente passageira na vida dos outros, isso é doloroso, "ser passageira". Uma vez que desembarcada, os outros seguem em frente, como se simplesmente, não houvesse ali, parada, perdendo o seu olhar no horizonte, a procura das pessoas que um dia disseram a ela "eu te amo", uma garota. Talvez tivessem mesmo amado, ou quem sabe, ela não fosse assim, necessária.
Eles nunca voltam, apenas seguem. E eu fico ali parada esperando o próximo trem que queira me levar um pouco mais adiante até se cansar de mim, até achar que não sou mais útil, ou que não passe agora de uma carga, de imensurável peso, e que seja tão difícil suportar. "A beleza acaba, as piadas cansam". O que você acha de ir comigo até o final?"

Maine
--
Ah, achei lindo.

sexta-feira, julho 27

Capítulo Dois - Elas

Duas semanas de atraso me conferiam quase dois dígitos de multa naquele boleto bancário esquecido sobre a televisão, tudo bem, eu vou lá pagar agora. O sol me incomodava um pouco, mas algo suportável com a brisa inexplicavelmente fria.
- Por favor, em qual guichê eu pago isso?
E é claro que a atendente apontou o que tinha a maior fila, mas eu tinha que pagar isso hoje, amanhã eu teria uma viagem de três semanas para Florença. O café de lá é bom, muito bom.
Até que a fila desapareceu depressa e em trinta minutos a mulher gorda me disse que faltava um certificado da loja, e disse qualquer coisa que eu não ouvi, o certificado ficou na gaveta do criado-mudo. Florença valeria os litros de gasolina que eu gastaria, se não estivesse andando a pé.
Olha só, era a mesma garota de cabelos curtos daquele dia, no mesmo Cyber Cafe daquele dia, bebendo... o mesmo chá.
Eu gostei de tocar aquele sininho ultrapassado, de novo.
- Eu pensei que você detestasse chá. – ela deve detestar, cuspiu na mesa o que estava na boca, e saltou de susto com minha frase.
- E olha só, o mesmo capuccino?
- Não, esse tem creme. – e um sorriso nada mais nada menos que suburbano, estava tudo igual à antes, mas os olhares apavorados dela não transmitiam a timidez de antes.
Inclusive repetiu-se a mão morna no meu ombro, embora eu estivesse indo para o lado oposto.
- Vamos, quero te mostrar uma coisa. – e o sorriso dela se encarregou de dizer meu sim.
E duas horas depois eu ouvi o mesmo baque na mesma porta, mas que tédio, me sinto num replay com ela. Definitivamente, sem creme é mais gostoso.

quarta-feira, julho 18

Evergreen


Cheek to cheek and dreams to thee. Everything will go the same way, yes, that same way I just cannot preview. Oh, I just cannot keep on wondering it through all these minutes. I think I spend so much time on this that I could use better. But I have to face it, I just need it, I mean, you.
Drowning slowly as the evergreen fairies try to pull me up, get me out of that bowl. But they will not do this perfectly, I do not think they could make it as well as you could.
And the freaking music that the Others sing get me out of my reason. Let it be damned. Now I can hear the good songs of the angels or the fairies, so I can Break on Through (To The Other Side).
As said before, I really spend so many time with all of these things and, of course, with you. I do not really love these things, but you...





--
As fadinhas deram trabalho, e eu até gostei delas.
Vou pra São Paulo amanhã cedo, isto é, se Congonhas deixar.

terça-feira, julho 17

Histórias de Coquetel #2

Ando atrás de uma carta que eu perdi. Olhei nas gavetas e no resto do armário, mas não consigo encontrá-la. É realmente irritante quando procuramos algo, e nada. Fico imaginando se sou sonâmbulo sem saber, se peguei e rasguei-a, ou se o fiz acordado e não lembro. Fico imaginando mil vampiros atrás de mim, enquanto eu corro com a carta que eles roubaram. Na verdade, eu fico sem saber o que eu devo fazer, se a carta é realmente tão importante assim.

Eu conheci essa cidade há algum tempo e morro de vontade de voltar pra lá. Onomatopéias tem tudo o que alguém como eu pode querer, desde a areia rala daquela praia cujo nome não me recordo até os bares e boates que me deixam elétrico. A primeira carta que recebi dela veio dessa cidade, ninguém me avisou nada, eu nem a conhecia, mas a partir do momento que li, ela tornou-se a minha Destinatária. Nunca me disse seu nome, mas morro de vontade de saber, sempre tive.

Invadiu-me a cabeça e eu fiquei completamente anestesiado e apavorado. Depois da vigésima carta que eu recebi, a propósito, nem a li ainda, aquela primeira carta simplesmente desaparece. Pode parecer bobagem, mas é que ela sempre junta várias coisas, toda carta que eu leio eu tenho que rever alguma coisa das anteriores, mas nunca as decoro ou transcrevo, não posso, a caligrafia da minha destinatária é algo maravilhoso demais para ser reproduzido, na mente ou em alguma outra folha de papel sujo.

Eu preciso achar a carta.




-
Eu me empolgo, eu sei. ;*

quinta-feira, julho 12

Poiné

Tudo se faz tão sombrio
Não há mais música
Não há mais sol.
A chuva cai e nada mais

Sem sorrisos,
Sem palavras.
Sem mais nada.
Sem sentidos sem ser nada
Sem ter tido
Sem ter nada

Nem sentido
Nem prazer.

Sem o sonho sem um nada
Sem a dor da punhalada
Sem a raiva deste mundo
Sem nada.

Mas dói e tanto se faz
Quanto a sonhar e nada mais
Quero paixão e seus sentidos

Paixão me satisfaria,
Pois a paixão, de tão rápida
Destrói a dor e tudo mais,
E paixão, por rápida ser

Até a morte ela mata
Contudo
Não mata quem se quer
Da vida se queixar

E sem vida fica
Sem nenhum consolo ter
Esperando a morte chegar,
Por sem mais paixão viver,
-tolo

E morre a sorrir em sonhos
Mas morre por tudo menos paixão
Pois algo de impossivel
Pro apaixonado
É morrer pelo coração.

Quando o tolo se apaixona
Não vê o abismo
Não cai e não morre
Não chora e não mata.

Pois pra morrer
Não é de paixão que precisa
Pois o coração só se mata
Quando o amor o infarta.




---
Já passou tanto tempo.

domingo, julho 8

Não-Literatura

É incomum eu me abalar a postar algo que não seja textos e metáforas chovidas em algum lugar, mas eu preciso desabafar sobre isso.
Estava por aí blogueando (geralmente aqui) e encontrei uma página anunciando a mudança na ortografia portuguesa, a unificação desta. Logo agora que já estava me apaixonando pela gramática. Tá, é exagero, diz que apenas 0.45% das palavras brasileiras sofreriam alguma mudança, mas mesmo assim já me incomodará ter de escrever "veem", "creem", "sequência" ou "heroica".

Aqui, leia mais.

Flor Dela

Káh, mulher das minhas tranças,
Káh, movimento progressivo circular,
Káh, minha caminhada ao desejo,
Káh, amada camada de labirinto,
Káh: melhor que sonhá-la.
Káh, mundo violeta,
Káh, amiga, amissíssima, a minha amante,
Káh, amortização a sangue frio e queima-roupa,
Káh, magia controversa,
Káh: melhor que flores,
Káh, melhor. Camélia.



sexta-feira, julho 6

Flor Bela

Cris, antes migrar da sua cama;
Cris, antes amar os lençóis;
Cris, antes mesóclises interativas;
Cris, antes molhar todos os travesseiros;
Cris, antes mudar todo o mundo;
- antes tudo isso do que te desgostar.
Cris, antes matar tudo que te queira;
Cris, antes esmurrar meu espelho;
Cris, antes melhorar todos os anjos;
Cris, antes muito de nada,
- antes tudo isso do que te despetalar,
Cris, antes morrer, crisântemos.




--
Um pouco de novo medo? Desabrochar.

terça-feira, julho 3

Chamber à Coucher #2

Soltou-se, eu gemi. Ele largou a corrente e me empurrou para trás, me fazendo deitar. Seus movimentos eram bruscos, brutos, e repletos de ansiedade, e nesse momento eu me senti como se fosse seu mestre. Afinal quem estava servindo a quem?

Senti o corpo dele pressionando o meu, novamente. Queria abraçá-lo, mas as algemas não deixavam, e eu não iria interromper o beijo. Deixei minhas mãos entre os nossos corpos, mas não paradas.

Toquei sua barriga, levantando sua blusa, tirando-a de dentro da calça apertada dele. Ele estremeceu, e eu me assustei. Ele nunca esteve tão inseguro como hoje. Espalmei as mãos, na barriga dele, com carícias tentadoras. Senti a barriga dele se contrair. E sorrindo dentro da boca dele, eu puxei o cós da calça, forçando minha mão para dentro, mas não conseguia.

Senti sua boca se alargar em um sorriso. Interrompeu o beijo, distanciou o rosto um pouco, assoprou dentro da minha boca entreaberta, fazendo-me sentir o hálito dele, até o ar ele sabia usar como carícia. De novo a língua dele voltou para umedecer os lábios, mas desta vez umedeceu os meus. Estava tudo muito bom, perfeitos momentos de prazer, mesmo que cancelassem meu desejo inebriante de algo mais forte, mais intenso, mais profundo. Algo mais vermelho.

Senti de novo sua respiração vacilar em ansiedade, e hesitei, mas não interrompi o momento.

Tenho que saber o que há com ele, algo realmente me preocupa. Então ele sorriu, maravilhosamente, me fazendo querer esquecer tudo. Eu o queria, de qualquer jeito; correram suas mãos no meu peito. Desceu minha barriga e finalmente, desabotoou sua calça, segurou minhas mãos e as guiou até o cós, novamente, o qual eu puxei firmemente para baixo, porém com moderação, tentando-o, mas sem sucesso, a posição não era favorável.

Deu-me um beijo final, mordendo meus lábios por fim. Afastou-se. “Agora obedeça, depravado.” Isso! Isso! Isso! Agora começamos a escorrer. Branco e vermelho é uma combinação linda.

De pé, ele agarrou a corrente de novo e me puxou, deixando-me de joelhos, encarando sua calça desabotoada e meio torta. “Tire-a” Tentei levantar as mãos para cumprir a ordem, mas o senti puxando, novamente, a corrente, com força, me fazendo bater com a cara na sua cintura. “Com a boca.” Disse tão pausadamente que o tempo parecia se desfazer. Eu sorri, olhei pra cima e vi em seu rosto um sorriso malicioso, mais lindo que o anterior.

Virei-me para frente e mordi a calça dele. De joelhos me afastei um pouco do seu corpo, e tentei abaixar sua calça, ainda sem sucesso. “O volume aumentou, mestre. Não consigo tirar.” Disse enquanto estava a conter os risos.

Em resposta, ele puxou mais forte a coleira fazendo com que meu rosto batesse em sua coxa. “Não mandei você falar.” Mas eu sabia que ele adorou ouvir minha voz.

“Incompetente, não consegue nem tirar minhas calças.” Me apoiei com os cotovelos na sua coxa, tentando tirá-las. “Deixe!” E deu um passo rápido para trás, me fazendo desabar no chão. Tentei em vão me apoiar nos cotovelos, caí de cara do chão. Ouvi-o gemer antes que o eco da minha queda cessasse. Mas se recompôs e austero lançou a corrente ao chão e se apressou a baixar as calças, com dificuldade e sucesso. Agarrou a corrente novamente e puxou-a para cima, me deixando de joelhos ainda.

Com a calça nas coxas e seu membro rígido eu não olhei para cima, esperando ordens, tentei ir direto ao ponto, mas ele impediu, dessa vez com o chicote que eu não o tinha visto pegar. “Tire minha calça agora, insolente.”

Mordi o cós da calça, sentindo algo a mais me tocar a cabeça. Com os dentes bem firmes fui abaixando a calça, finalmente, até chegar aos pés, quando eu já me encontrava com as mãos no chão, de joelhos. O chicote dele me pousou na cabeça. “Fique... Assim.” Não vi, mas sei que ele sorriu. Segurou forte na corrente, e me rodeou, parando logo atrás de mim. Com o chicote ele levemente desceu a bermuda esfarrapada que eu vestia.

Eu o amava! Amava vê-lo sorrindo, amava vê-lo com o rosto indubitavelmente desleixado, pensando no nada, com o sol na cara. Amava vê-lo de qualquer jeito. Mas tinha outro sabor quando ele estava dentro de mim.

Suamos juntos alguns momentos. Gememos juntos. Eu com a cabeça apoiada no assoalho, e ele com a corrente frouxa em uma mão, o chicote já havia sido lançado para longe, sua outra mão apoiada no mesmo assoalho vitoriano. Daria tudo para ter a visão de seu quadril se mexendo, mas daria muito mais para não sair daquela posição.

O chicote estalou de novo. Minha boca gritou feliz, quase um gemido e minhas costas se marcaram vermelhas, eram mais que arranhões. De novo. De novo. De novo e mais várias vezes, até que ele gemeu forte, quase um grito. Foi intenso, molhado, cheio de prazer, foi mais que um gozo. Ele deitou-se nas minhas costas, me permitindo dobrar os joelhos. Deitados no tal assoalho, ele dentro de mim, ofegando juntos: foi só mais uma transa.

Ou, quase. Enquanto o silêncio nos pairava, solene, pensávamos que tinha sido só mais uma de nossas transas. Quando percebemos mais gemidos ao fundo, sonoros e em um ritmo frenético. Prestamos atenção, em meio aos nossos suspiros. Os gemidos vinham da escuridão direcionada à porta do aposento. Ele fez com que eu me levantasse e pediu que ficasse em silêncio. Fomos até a porta, ele na frente, sem as calças, confesso que quis rir, mas permaneci em silêncio devido à curiosidade. Os gemidos estavam ficando mais altos, mais intensos, mais provocantes.

Bruscamente, ele abriu a porta junto com um gemido um pouco mais excessivo. Espantamo-nos com quem vimos. Quando ele abriu a porta totalmente eu tive certeza de quem era, e o que fazia.

domingo, julho 1

Chamber à Coucher #1

O corpo dela trovejou, esguio, sucumbindo entre os escombros. As agruras incessantes redecoravam minhas vestes em arte final escarlate. E ela sorria ao sonho que torturava-me; cordas acordaram-me a açoites, e eu sorri às trevas infinitas escondidas defronte à minha pupila.

"Meu mestre quer que você me acompanhe, devasso." Soou a voz doce, fina, e congelante.

Então nada mais restou, nem pedra, nem olhos, nem dentes ou rios ou céus. Fora eu, o devasso, descendo da masmorra, girava espiralando, temendo, sussurrando. Descia, cadente, o vertente da torre lânguida e tardia, e eu ia como cometa, como pedra, acometido da queda, ao túmulo, à cripta, à tumba. Sei que eu morreria.

"Sorria! Pacata será sua morte. Ou me desobedeça, e assim não bastaria só sua morte, devasso, mas o sodomizaria até que não aguente mais gemer!" Agora a voz vinha ríspida e em tons cantantes, metálica e sonora, voz determinada, voz dominadora. Era a voz do mestre.

A outra puxou as tiras de couro, com ferrões ao fim, que desceram soturnos fazendo cravar na minha carne o grito que fugia pela boca desvirginando os ouvidos ímpios, porém belos. E vi aqueles belíssimos dentes cerrados, em um sorriso sádico, entre lábios delicados de mulher, "Grita mais, devasso!"

E eu gritei, escondendo a tara e o prazer: suspirei sadomasoquismo.
O mestre, obscuro em seu trono, voltou a dizer. "Escolha, meu amor.

Vai sorrir e assentir?" Fez um aceno, fez-se um estalar de chicote, fez-se respingar meu sangue no chão de assoalho requintado. Não sei se era carvalho ou cedro, era escuro e avermelhado e pegajoso. "Ou quer parecer forte e tentar resistir?" Outro aceno, outro estalo, o mesmo chicote, as mesmas costas, mais sangue, no mesmo assoalho; era carvalho, idiota!

Minhas mãos correram o assoalho, os desenhos e os riscos da madeira. Desenhado em estilo vitoriano, era elegante, mas demodè. Era suave, dava pra sentir os detalhes de quando se lixou a madeira, a leve aspereza. Os pés não sentiriam, as mãos só se fossem bem treinadas. Mas o rosto sentia, sentia perfeitamente cada linha descrita ali. A bochecha esmagada entre os caros desenhos inscritos, naquele momento desejei que ficassem impressas as marcas da madeira no meu rosto. Mas, do outro lado, ficava marcado o salto fino da lacaia. Uma mancha vermelha ia se formando sob seus pés, sobre meu rosto.

"Responda!" Pude ouvir seus lábios tremerem, com excesso de saliva, e excesso de ansiedade. O mestre estava nervoso! Isso é algo raro. Nos quatro anos em que o servi como cachorro, pisando no rosto de pessoas bem menos interessadas por assoalho, nesses quatro anos ele nunca havia se alterado. Mas agora, por minha causa! E essa é apenas a minha primeira semana. Parece que eu represento mais do que imaginava. Sorri, profundo e feliz. Ele parecia estar abalado com meu silêncio!

Isso é mágico! Não respondi.

Suas botas tocaram o chão, rígidas e lustrosas. O trono foi abandonado, desceu os três degraus, ainda de carvalho. Chegou-se perto de mim e pôde ver meu sorriso, sei que pra ele era extremamente ameaçador. Ver seu rosto me impressionava. Era branco, contornado praticamente por feixes bruscamente despenteados de não-luz, impostas como moldura. Seus lábios eram levemente rosados, levemente finos, levemente molhados, mas pesavam os maxilares na minha pele, outrora. Vi sua língua sair, umedecendo os lábios, definitivamente. A língua era linda e precisa. "Está se divertindo me deixando ansioso, devasso?"

Não aguentei, ri. A lacaia deve ter se espantado, pois a pressão sobre meu rosto diminuiu. O mestre tocou o ombro dela e ela retribuiu um sorriso amarelo e se retirou, deixando o chicote em suas mãos. Deu-me um chute de leve na barriga. Pôs os pés nas minhas costas, e pressionou. Em
meio a seus breves risos incontidos ele tentou soar sua voz metálica.

"Pare de rir, meu amor." E chegou-se mais perto, agarrando a corrente da coleira que me prendia. Puxou ríspido e os ossos do meu pescoço estalaram, lançando-me pra mais perto dele. Curvou-se e me encarou por alguns segundos, mantendo o rosto perto do meu, empunhando a corrente que cintilava na pouca luz do aposento, ressoava o metal no carvalho. Suas mãos aproximavam meu pescoço. Já não via o fundo, minha visão terminava no rosto dele, a beleza, a plenitude, a calma.

“Você é meu.”

Senti meu pescoço sumir quando ele me tocou, na nuca. Era anestésico, os grilhões não me importunavam, a cinta com ferrões muito menos. Sua mão esquerda pendendo em minha nuca, com carícias disfarçadas enquanto sua língua extremamente precisa me derretia sob o céu estranho da minha boca.

quinta-feira, junho 28

Histórias de Coquetel #1

Rubricou. Virou e leu, rubricou com um ar mefistofélico.
- O que mais é necessário? - e o outro sorriu desenfastiado e com certa ganância.
- Mais nada, senhor, tenha uma boa noite.
- Igualmente, Vermelho.

Aquele conseguiu seus louros e até Mercúrio pagava-lhe a presença, Netuno sorriu seus passos e até aquele outro, (como se chama? ... ah) Zeus, iluminou uma noite com trovões belos para ele.

Escreveu cá com seus botões, a carta de que dependia algumas decisões, iniciava-a:

"Falta tão pouco tempo, tão pouca coisa, mas não quero me apressar a sorrir demais, o tempo sempre me foi infiél, tampouco quero aquela desatenção ou aquele tão pouquíssimo afeto que faltou-nos outrora. Eu quero tudo no próximo hotel, seja por mar, por terra, ou via Embratel."

A citação fê-lo sorrir perante à folha de papel. Polvilhou algumas metáforas, umas musicalidades e outras centelhas de um querer embebecido na mais carnal vontade. Estava pronta; concebera, naquela noite, uma alforria, libertaria a tristeza pungente de seus sonhos, libertou-se também.

"Enfim, quero você."


Findou sorrindo, passou duas quadras e foi esperar por ela, a destinatária. Pegou na revista e passou o tempo com palavras-cruzadas, vendo o AMOR pendurando-se no TEMPO, para rimar com a dor que tinha na CABEÇA, que segurava o AMOR com vontade. Qual será essa palavra? Cinco letras apenas, qual será? A partir do "M", fez os "O", "R", "T", e prestes a traçar o meio do "E", ela chegou, não traçou-o.
Olhou pra a carta, olhou para ela, sorriu para ambas, deu-lha. Olhou de volta para a revista e pensou em terminar, mas a preguiça fora maior.
- Vamos, leia logo, eu espero.
Gostava de ver a expressão de seus destinatários, era algo mágico para ele, tentava decifrar o sorriso, desvendar a veracidade deles. Este sorriso dela foi molhado e radiante, como arco-íris no meio da tarde. Beijou-lhe, recebeu-o de volta, sorriram.

Pensou na rubrica, de noite, quando cobriu a sua destinatária do frio da janela aberta. Sorriu sinistro e pegou de volta a revista. Apagou o resto da MORTE e analisou bem a rede. Não pendia MORTE daquele AMOR cinza do lápis, pendeu MESMO do amor maravilhoso.
Já clareava um dia nublado, dias nublados o alegravam. Rabiscou num pedaço da revista e saiu do quarto, deixando-a sobre o travesseiro.
Ela acordou com a revista na cara, viu o AMOR rabiscado bem forte nos quadros de papel, e viu um recado:

"Pra continuar com você não farei um pacto com o demônio, mas o quebrarei.
Fui buscar o café, me espere sem banho,
com AMOR,
o
Remetente."


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Pensei nisso agora, achei divertido. :)

segunda-feira, junho 25

Transluzindo

A ardência que havia de noite, na sua presença, queimou meu querer. Uma forma, uma maneira, quero toda verdade, todo desejo e toda a vontade que possa gerar.
- Não pense nessas coisas bobas hoje, tudo o que vale a pena já foi dito.
- Não concordo com isso que disse, o que eu quero está além do que dizemos.

É muito difícil dizer tudo o que eu queria que soubesse, talvez medo, ciúme, insegurança, carência, vergonha... Só você consegue fazer com que eu flutue sobre minha própria cabeça, gira meu eixo, oscila o meu equilíbrio sobriamente, sombriamente me fez ser seu. Na verdade, o que eu mais quero é ser as suas pálpebras e suas unhas, seus cílios e metacarpos. É um desejo forte e intrínseco, é um querer incolor das brisas frescas do nosso mar de verão, em vinte-e-seis de janeiro. Recitais e luais, fogueiras e brasas que nunca apagar-se-ão. Você e eu, sonhos, eu e você, desejos, nós, traição, eles, tédio. Aclamo a supervalorização da nossa vontade, seja forte e eterna a nossa vontade, suprema, soberba, egoísta e auto-suficiente, queremos, sonhemos, gozemos. Não quero mais nada pra fazer, apenas rolar na sua cama e na de mais ninguém, no seu chão e no mais piegas de ninguém. Você é a menina que beijou minha vontade e minha boca antes de qualquer desejo mais carinhoso, você.

Mantenho meu discurso extrapolando meu ego e minha auto-estima, não me tenho felicidade se não tiver a sua. Dê-me um beijo agora, amor, de lábios em fogo ou de vontades cruas e nuas como devemos ser. Seu corpo todo meu, meu de ninguém mais, o meu todo seu, seu de ninguém mais, apenas nossos corpos nossos, nosso odor apenas nosso. As nossas mil bocas dos dentes mais queridos, eu quero ser seus dentes para morder-me, sua língua para me beijar, sua pupila para me olhar, seu desejo de me querer.



--

transluzindo

gerúndio de transluzir

transluzir
do Lat. translucere

v. tr. e int.,
luzir através de alguma coisa;
v. refl.,
reflectir-se;
revelar-se.
*

7.

Gostei desse tipo de texto. Tem uma mensagem ai, e 7 é a dica para entender essa mensagem.

quinta-feira, junho 21

Trust Me

- Mas é tão lindinha, por que você não deixa eu olhar? Não gosta?
- O problema não é esse...- Eu senti sua face ficar quente e sabia que estava ficando cada vez mais vermelha.
- Não precisa ficar assim, querida, mas... não te entendo.

Falava de uma marquinha discreta que tinha ao lado da virilha esquerda. Não sei se era pinta ou o não sei o quê. Eu achava que parecia-se com Bora-Bora, mas não parece, talvez lembre Madagascar, talvez as Malvinas, digo, a parte da esquerda. Tanto faz, era linda.

- Ainda acho meio constrangedor ficar assim. O que há de tão especial aí? - depois de dizê-lo, paramos e rimos um pouco, meu rosto apoiado em suas coxas, beijei-as enquanto olhava seu riso largo fitando o teto com os olhos fechados, um pecado.

Seus olhos não tinham o mesmo ar dissimulado de outros, mas ainda eram verdes e perspicazes, apaixonantes. Não os vi por um tempo naquela tarde. Tenho certeza que as noites seriam incrivelmente deliciosas, mas à noite voltávamos a sorrir os beijos dissimulados no rosto, cumprimentos calorosos como os de confidentes e os de amigos, amigos, nós, amigos, amantes.
As tardes eram nossas. As tardes eram lindas. O sol nunca fora tão frio. Mas essa tarde estávamos atrasados.

- Pára de pensar agora, já está escurecendo.
- Cala a boca, vem log
-- Puxei-a com vontade de virar a noite. Impossível.

Rimos quando rolamos e caimos no chão, tivemos de rir, ela por cima  de mim, suas pernas me rodeando. Ajeitou-se de joelhos sobre mim, olhando e parando de rir aos poucos. Agora sorria, apenas. O chão estava bom. Passou a mão rápida e me vi com a calça aberta, sob suas pernas nada flutuantes. Seu peso imprimia os contornos das suas coxas nas minhas. Levantou-se e puxava os jeans até jogá-los longe.
Antes de continuarmos eu fiz com que parasse. Passava as mãos pela sua cintura, fazendo a saia descer os quadris aos poucos, apertava-lha logo ali.

- Desabotoa antes. - E eu tentei chegar minhas mãos na casa estreita do botão, mas segurou meus pulsos e irritou toda sua malícia, deixando-me indiscutivelmente com minhas mil vontades de rasgar logo aqueles panos. Como? - Você não tem apenas mãos. - E sorriu, era radioativa. Seu sorriso era a chave para tal paradigma. Ok, não era nada não difícil de se perceber, mas eu estava com baixa oxigenação no cérebro.

Mordisquei o botão, não saiu, tentei pressioná-lo com a língua, nada. Quase sem paciência, embora estivesse adorando a situação, mordi o cós da saia e puxei com alguma força.

- Cuidado! - não rasgou, abriu. Ela riu, mas não parou para reparar se havia rasgado, que importava?
Deitados no chão, meio anti-anatômicos e demasiados anacrônicos (ou era nosso desejo) cruzamos algumas horas daquele fim de tarde a nos morder, no chão.

Já eram quase nove horas e voltamos para a cama e o lençol claro. Voltamos à posição inicial. "Trust me".
- É tão lindinha. - não me impedi, beijei-lhe a Malvina, que gemeu, junto com ela.
Mais alguns beijinhos e uns gemigos, e eram nove horas ainda.

--

"Será que vela como eu? Será que chama como eu? Será que pergunta por mim?"


sábado, junho 16

O Nosso Mundo

         Florbela Espanca                     

Eu bebo a vida, a vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno!
Pousando em ti o meu amor eterno
Como pousam as folhas sobre os lagos...

Os meus sonhos agora são mais vagos...
O teu olhar em mim, hoje, é mais terno...
E a vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagos!

A vida, meu amor, quero vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos.
Bocas unidas hemos de bebê-la!

Que importa o mundo e as ilusões defuntas?...
Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?...
O mundo, amor?... As nossas bocas juntas!...




--
Florbela Espanca (1894-1930), ignorada pela preconceituosa crítica do início do século, é considerada hoje em dia a mais sublime voz feminina da poesia portuguesa de todos os tempos (pra mim, Leff, do mundo!). Seus sonetos são um ousado diário íntimo, onde palpitam as ânsias de uma mulher ardente, a clamar pelas carícias de um amor impossível. O caudal dessa insatisfação veio desembocar na trágica madrugada de seu 36º aniversário, quando a bela e carnal alentejana se calou para sempre, após uma dose excessiva de Veronal.
(contra capa)

É, gostei de postar fotos.

sexta-feira, junho 15



Andávamos sob sol quente. Corríamos dois sertões. Eu e Baleia, Baleia e eu. Brincávamos e sorríamos pro amarelo fumegante do horizonte azul, não ventava. Do outro lado do marrom, viajava inerte e torpe, entediando minhas parcas emoções e gritinhos internos de alegria.
Alguém quer muffins?

-
Lixo literário? naaaah, desabafo e bate papo.
Estou empolgado com Vidas Secas, de Graciliano Ramos, experimentem, a Baleia me fascina.
;*

Dois dedos de minutos foi um epílogo. Necrofagia Noturna não foi um prólogo, meu prólogo está aqui ainda, quem sabe eu mostro?, Ah, e a Melissa quer falar com vocês, hoje não.

Necrofagia Noturna

"Vagando solenemente pelos campos verdes-prateados da noite na clareira, eu me deparei com um corpo todo envergado sobre algo que lhe repousava às pernas. Observando percebi que o desespero rondava o ar daquela cena, meu medo incompreensível (do que eu conheço) me fez recear e olhar para trás, para ver se haveria algo que me encorajasse a voltar para o acampamento, mas nada aparente circundava a noite nas árvores. Continuei a me aproximar das formas informes ao banho de prata. Percebi resquícios vagos de sangue enquanto andava, muito lentamente, até lá; tais resquícios logo se transformaram em poças vermelhas, cada vez maiores que, para minha tormenta, levavam em trilha até as formas que eu buscava. Minha formação como agnóstico indeciso me forçou a fazer o sinal da cruz, não que acreditasse realmente naquilo, mas proteção, em horas de medo, é sempre bem-vinda.
A cada passo meu, mais o medo me invadia. Houve hora que parei e desejei ter coragem para desatar em uma correria incessante, mas sou covarde, e continuei a me aproximar da estranha cena. Agora a poucos passos do objeto de meu medo e desejo percebo que ainda não consigo entender direito o que era, parecia como alguém mordendo fortemente um corpo, logo após ingerindo, rudemente cada parte arrancada. Parei, embasbacado, tentando identificar qual seria aquele corpo, desejando profundamente que fosse um veado ou animal da floresta, mas pouco a pouco reconhecendo formas humanas no pobre diabo que estava a ser devorado.
Subitamente, o desprezível predador parou o seu jantar e começou a me encarar, com a boca a pingar sangue e os olhos funestos e vazios, que eu costumava ver no espelho do banheiro de meu apartamento de luxo em Nova Iórque.
O jantar era humano, mas não posso dizer-lhes mais se era um homem ou uma mulher, que lutou com o antropófago. Embora estivesse completamente carcomido por medo, meu espírito de aventureiro me fez reagir àquilo tudo com diversas indagações, repletas de ódio, ao canibal postrado à meus pés, com a refeição ainda por comer. Houve, porém, algo inesperado naquela hora, assim que abri a boca para reclamar a vida (ou a paz eterna) da pobre criatura, nenhum som saía da minha boca. Comecei a me analisar e, quando voltei a prestar atenção nos dois à minha frente, tudo ficou negro como a própria noite que me envolvia. Rapidamente me vi no acampamento, deitado, olhando o céu sem estrelas. E, depois disso, outra forma negra cobriu-me os olhos.
Levantei-me e fui ao banheiro, lavar o rosto, para me recuperar do pesadelo. Antes, olhei pela janela, na cobertura do prédio, o céu tinha uma lua cheia cheia de constelações pontilhadas à sua volta. Retomei meu caminho ao banheiro e lavei o rosto, com a luz bem acesa. Voltei o rosto para o espelho e os mesmos olhos funestos me espreitavam do outro lado do espelho, a mesma criatura desprezível jazia, embasbacado à minha frente, encarando-me através do limiar o espelho. O antropófago era eu, logo pensei: "Ora, era só uma forma de sobreviver, em últimas estâncias, alimento." Voltei a dormir, e minhas noites nunca mais foram povoadas por essas cenas de morte. Continuei a viver minha vida, ainda com olhos funestos e vazios, mas sem ter provado o sabor do sangue e da carne de algum homem, ou mulher."


--
Eu sei que vocês já conhecem.

quinta-feira, junho 14

Dois dedos de minutos.


Ela fez uma trança bonita no seu cabelo dele, despediram-se.

"Vou sair daqui por uns tempos, preciso me dar um tempo para refrescar."
Abriu a janela, olhou os carros lá embaixo, fechou-a e desceu pela escada quente, o elevador estava quebrado. Saboreando o frio, fechou o casaco e andou dois quarteirões, parou. Comprou dois expressos, sempre quis segurar aqueles copos que via em filme.
Perto de casa, ele a viu nua correndo pela rua, tropeçando no meio-fio e caindo na neve, ela levantou-se rápido e correu na outra direção, um ônibus, Nãaao!, ela sumiu. Ele fitou o tédio do motorista. Piscou seus olhos verdes, olhou para o alto do prédio, a luz do seu quarto estava acesa. Teve medo de subir, ficou ali parado, com os copos isotérmicos nas mãos, corando com o frio, brincando com a fumaça da boca e dos copos.

Subiu, seus tempos tinham cinco minutos. Colocou o copo sobre a mesa, ao lado das passagens, apagou a luz do quarto, olhou uma foto dos olhos tranqüilos dela. Penteou e lavou o cabelo, bebeu os dois expressos e foi deitar-se.

sexta-feira, junho 8

Discorrendo sem pódio de chegada.

E fez-se a vida a partir de duas mãos. Na Sistina e aqui.
Conhecem aquela da imagem que vale mais que mil palavras? Só se forem ditas, pois tentem reconhecer uma palavra escrita que não forme uma imagem, logo, uma palavra vale mais que mil palavras. Eu odeio matemática, e adoro subjetivismo. Estou vicando viciado, estou me viciando, estou mesmo.
Chama-se subjetivismo crônico. Tudo cria, por si só, mais de um sentido. O segundo torna-se parassintético e quase metafísico, obscuro, perpendicular, normal. Torne-se auto-suficiente através das palavrs que tiver que dizer-me. Isso funciona.
Chama-se subjetivismo crônico. Tudo forma todas as formas formais ou informais, até disformes, e tudo para eu perceber que a metempsicose não passa de palavra complicada que não significa mais do que o que a gente não entende.
Chama-se metalinguismo evolutivo. E dane-se Darwin.
Chama-se subjetivismo crônico. Só não consigo parar, de jeito algum.
" - Diga sinteticamente, você é outro daqueles pseudo-intelectuais?
- Não. Eu apenas nunca me repito. "
Chama-se metalinguismo.
" - ... .
- Quem cala concorda?
- Sim."
Chama-se gafe auto-descritiva.

Não importa, chamo Subjetivismo Crônico.
"Outro dia mesmo eu estava voltando para casa quando vi dois meninos me olhando."
"Ai então levaram-lhe até as abotoaduras douradas, e ninguém chamou o rabecão para Dario"
Chamo-me eu.
"- Tu, diz 'correndo sem pódio de chegada'.
- Nem beijo de namorada..."


-
Gente, juro que não bebi café demais, mesmo. Então, eu consertei os comentários. Podem comentar a vontade, a Melissa vai morrer de fome assim. Ah, não sabem quem é Melissa? Digo outro dia ;D

"Spinning on that dizzy edge
I kissed her face, I kissed her head
And dreamed of all the different ways
I had to make her glow"

Val, sinta-se honrada por ser a primeira foto e a primeira homenagem (direta) desse blog, ouviu? É que você ilumina e dá saudades. Eu até divido o pote de nutella se você quiser ;)

quinta-feira, junho 7

Concordância poética na prosaica poesia de nós dois. (ou "Essências")

Sorvia.
Sorria.
Danava.
Dançava.
Dois.

Queria tanto que fosses minha, tu e aquela tua saia de tule. Quis tanto que fosses minha, e apenas. Qui-la, quero.

Sorviamos.
Sorriamos.
Danávamos.
Dançávamos.
Um.

Entreguei-me e bebi-te do mais belo puro desejo, sorviamos a noite como sorriamos o dia, danávamos os pés no tablado mau-encerado, crispado e riscado, dançávamos como se um dia não fosse mais um dia, como se, à noite, tudo fosse acabar.
Nós, dois, um.

Sorviam.
Sorriam.
Danavam.
Dançavam.
Nenhum.

Sem mais mesas nem mais bailinho, nem uvas nem raposas e nem a lambretinha. Sem corpete, à chanel e à lancaster. Sorvia teu busto, sorria teu umbigo, danava minh'alma, dançávamos. Não haveria nunca nenhum outro sorriso, ou bebida, nenhuma dança nem outro dano maior que o dessa noite. Nenhum.

Sorve.
Sorri.
Dana.
Dança.
Eu.

Quero que tu, querida, faças o que eu quero. Sorve e sorri, dana e dança. Eu. Ordens de uma vontade de ordem maior, maior patamar, maior insígnia. Sem isto serei eu insignificantemente um omissor nada promissor.

Sorverei.
Sorrirei.
Danarei.
Dançarei.
Nós.

O colchão bebe a nossa noite belíssima. Sorrindo estamos. Bebemos demais. Sorvemos demais. Danamos e dançamos demais. Fomos poetas, sonhamos e amamos na vida.

Dois.
Um.
Nenhum.
Eu.
Nós.

Nós, eu nenhum, dois, um. Não havia mais ninguém além de nós, não havia mais de um corpo entremeado no colchão. Abrimos. Nós. Sorrimos, nós. Danamo-nos. Sorvemo-nos. Dançaríamos mais, nós. Nós, apenas. 
E no fim... Nós dormiu.


-
Pensem mais. ;D
Geez, eu adoro esses títulos, ou aqueles ;D

sexta-feira, junho 1

Laços e Fitas

Abraços e gritos naqueles k7's antiquíssimos. Pediu dois minutos para trocar a fita; foi ao criado mudo e abriu duas gavetas, ou três... Rec.

- Acho tão esquisito ouvir essas fitas que a gente grava, mas acho bom. Sinto saudades de você me mandando calar a boca como só você faz e--
- Cala a boca. - Esta frase sempre antecedia um beijo e uns risos. E aqueles risos foram as testemunhas da intimidade apical e bidirecional.
- ...e de rir de você, ouvir você (e eu) rindo é muito bom. Sinto saudades. Brrrrr... Sinto frio.
- Quer que eu desligue o--
- Não é isso. Sabe aquele frio gostoso de andar sorrindo e rindo com o rosto vermelho? De poder usar o agasalho que quiser? Falta o calor deste frio gostoso.
- Você é um agasalho ótimo. Mas diz coisas sem nexo às vezes...
[Neste momento eu fiz silêncio, mas o gravador não gravou.]
- ... e eu sempre acabo entendendo. Como a gente faz isso?
- Telepatia.

O aparelho não estava mais gravando as nossas vozes. Gastamos aqueles centímetros de k7 com alguns minutos de gemidinhos e gargalhadas.
Pensem o que quiserem, vocês apenas ouvem, mas só eu vi o que nós fizemos aquela tarde (eu e ela). Porém, digo-lhes algumas imagens.

Voltou à gaveta de baixo, abriu-a e fez-me fitar seu cabelo bagunçado enquanto o amarrava na fita verde brilhante. Adoro cetim. Passando os braços em torno do meu pescoço deu-me um laço e içou-me, jogava-nos para um lado, depois para um outro, até que caí no colchão sob os risos e as coxas e a barriga e o colo e o corpo todo dela.
[Guardem esta imagem.]
Beijamos, dormimos e ficamos curtindo nosso frio quente.

Era noite já, acordei sem ela por lá, procurei sob os lençóis brancos, sob a fronha verde e atrás do edredom estampado, olhei até na tal gaveta de baixo: havia papéis.
Nove pedaços de papel, nove folhas de caderno pueril, as nove cartas que mandei para ela. Lembrei cada linha, quase que por mágica, li todas para mim (sem abri-las). Li, reli e de novo. Acometido por duas lágrimas na face esquerda, desesperei-me.
- Edredom maldito, devolva-a! - Foi um grito estranho da pessoa mais estranha daquele quarto daquele hotel daquele bairro daquela cidade (com ou sem as vírgulas).
Em nem um minuto sequer, sequei meu rosto e vesti-me. Parei às cartas de novo e as li de novo, levei 48 segundos, não mais.

Chamou-me Romeu quando, enrolada na toalha, apareceu na porta do quarto e gritou que eu voltasse. Eu já tinha descido os dois primeiros lances de escada, olhei de lá para a minha Julieta na sua varanda e com seu vestido; e com um sorriso bobo, digo, dois (um comigo e outro com ela) disse:
- Só fui tomar um banho, volta pra cama.
- Ó! Ela fala...
E nós rimos. Mostrou-me o gravador para mais risadas, alguns beijos e o resto da noite.

Na manhã seguinte notariam o edredom que eu joguei da janela.



♥



-
Coisas de aula de história. :)

sexta-feira, maio 25

Do Sono (Promíscuo e) Secreto de Gaio

Por via da dúvida
Olhei pra ela
E ela, querida,
queria, querendo,
que eu a quisesse
e eu a quis, quimera,
e quem dera que houvesse
Quem que mais a quisesse.

Por via da dúvida
Olhei pra ela
E ela, querida,
queria que eu a quisesse.
E eu quis e quero
E queria (como quero)
Mais do que qualquer outro
quis tê-la.

Que estrela aqui jaz?
Qual estrela havia
na noite cadente?
Qual estrela;
minha dúvida,
minha dívida,
minha dádiva;
minha dalva,
cadente, carente,
meu sol.

Por via da dúvida
Olhei pra ela.
Olhei por ela,
minha dúvida
minha estrela.
Por via láctea
me quis.
Por via da dúvida
Minha dúvida a via,
Eu a quis.
Por via da vida,
Minha dúvida não a via;
Saudade... Vontade;
Por via láctea - estrela -
Minha dúvida não havia,
não mais.
Muito mais: quis tê-la.





--
E pelo fogo de Nero, eu quero. :)

sábado, maio 19

A Menina

Tu não me renegas,
O piegas
Que, naquele dia,
Sorria
Da balaustrada
À mi'a amada
Capitu.

Tu não me queres,
O teu reles,
De misericordioso.
Nosso gozo
De brancas manhãs,
Carícias tão sãs,
Capitu.

Só eu que te quero,
Num auge sincero,
Toda mi'a vida te quis:
Sê feliz...
Querida Capitu.

E como Monalisa partida,
Amada, de ardente ferida
Me postro a teu lado
Inconformado.
Sem teu hálito matinal,
Nem teu bem, nem teu mal.
Entro no teu beijo forte,
Tu, meu norte
Nu, meu sul.
Capitu, oh! Capitu.

♥

;*

terça-feira, maio 15

Eu, ela, Álvares, Cazuza e o bilhete escondido.

É ela! É ela! - murmurei tremendo,
E o eco ao longe murmurou - é ela!
Eu a vi... minha fada aérea e pura

Sibilava à minha consciência, docemente ao ver, introspectivo, as minhas memórias cinemáticas. Meu movimentos maravilhados de toda a vida, digo, da vida de que me lembra até o dado momento, enfim, era mesmo ela.

Amor da minha vida
Daqui até a eternidade
Nossos destinos foram traçados
Na maternidade.

Este gritou num canto melódico e maravilhosamente macio. Sorri. Troquei o rolo da película, para ver outro videoclipe da minha obsessão.

Esta noite eu ousei mais atrevido
Nas telhas que estalavam nos meus passos
Ir espiar seu venturoso sono,
Vê-la mais bela de Morfeu nos braços!

Acalma-me a calma desta voz, recitando esta sua mente frutiferamente decomposta. E ecoando o seu eco fora de controle. Enquanto aquela outra voz me dançava os pés e os ombros no mesmo e mesmo canto repetido - e por isso auto-odiado - que eu amava, e amo.

Estamos, meu bem, por um triz
Pro dia nascer feliz
Pro dia nascer feliz
O mundo acordar
E a gente dormir, domir.

O sono, porém, não me prendia nos seus desejos sinuosos. Meu querer era bem mais que bem-demais-querer, era muito muito mais que o estritamente necessário, era obsessivo, era lha-querer, a ela e somente, tudo por ela, profundamente. É ela, é ela, é ela. Mais ecos.

Quase caí na rua desmaiado!
Afastei a janela, entrei medroso...
Palpitava-lhe o seio adormecido...
Fui beijá-la... roubei do seio dela
Um bilhete que estava ali metido...

Roubei do sono dela, meu beijo mais que querido, este porém exagerou a minha lembrança, não havia rua alguma para que eu caísse (ou quase caísse), ao meu ver - o olhar mais que intermitente - a janela nada mais seria que nossos lençóis mal-passados, emoldurando toda aquela compostura mui bela. Beijei-a. Seu bilhete, sim, havia, para tal grande surpresa. Li:

Faço promessas malucas
Tão curtas quanto um sonho bom
Se eu te escondo a verdade, baby,
É pra te proteger da solidão.

De súbito quase acometi-me de tal desmaio que aqui outrora tratei, mas apenas quase. Era susto, era medo, era intenso, era gagueira, era pavor, era paranóia, não, nada mais era que amor. E para manter-me o mais clichê possível, repito esta rima mais que prosaica: "... era pavor, era paranóia, não, nada mais era que amor." O que esconderia? Precipitou-se, o primeiro, a seu respeito dela.

Não mais!
Oh! Nunca mais!

Entretanto...

Solidão, que nada!

Fazia-me e faziam-me - fazíamos de mim - confuso.

Eu deixo a vida como deixa o tédio.

O meu tesão... agora é risco de vida!
Será?

E no ápice de meu desentendimento ela moveu-se, com outro de seus sorrisos instigantes - e meigos. Era um sorriso interessante, o sorriso de quem sabia de todas as perguntas da minha cabeça. Apoiou-se nos cotovelos, ajeitou os lençóis brancos. Sorriu-me outro beijo, ou beijou-me outro sorriso, ou ainda calou-me as perguntas com seu hálito de felicidade, sorri por dentro. Pegou-me a mão e tocou-a no seu ventre, com o máximo da pureza e o dobro da luxúria.
Logo, fez-se tudo claro, as palavras fizeram-se entendidas, o bilhete daqueles seios benquistos era mais alvo que nosso próprio desejo, intermitente.
Disse-me ela pela sua própria boca, mas pelas palavras daquele primeiro (lembram-se quem?):

Talvez que Deus me dê, curvado e mudo,
Nos eflúvios do amor libar um beijo,
Morrer nos lábios dele.

Quisera eu ter palavras (minhas) para responder a altura. Tomei as do segundo para fazer-me a nossa felicidade. Fiz meu sorriso malicioso de quem quer cantar, cantando:

Eu quero a sorte de um amor tranqüilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva.

Com outro sorriso sabido, ela respondeu.

Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia.

E eu.

E ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia.

Surpreendentemente, completou-nos o segundo, era sua própria autoria.

Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum veneno anti-monotonia.

Ceresta, serenata, luau - sem praia - ou o que fosse, cantávamos. Eu, ela e Cazuza.

E se eu achar a tua fonte escondida
Te alcanço em cheio, o mel e a ferida
E o corpo inteiro como um furacão
Boca, nuca, mão e a tua mente não.

Para então, a maior surpresa daqueles tempos, talvez maior até que o ventre dela..., o primeiro, o mais velho, o mais talentoso, o mais libertino e o mais romântico, o mais Álvares, o mais de Azevedo.

Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum remédio que me dê alegria.

Não que eu realmente acreditasse que ele pudesse saber desse remédio e dessa alegria, e desses beijos e dessa nossa comida. Mas palavras são palavras, sonhos são sonhos, e memórias também.
A sessão acabou, rapazes. Então, agora é hora da sessão coruja.

Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor
Meu amor, meu amor, meu amor...

A lâmpada apagou-se.

sábado, maio 12

Agora Chove

Todo dia, todo o dia.
Era ela.
Toda hora, toda a hora.
Éramos nós.
Todo mundo, todo o mundo
era ela, é, somos.
Chove agora. E flashes.
E fim.

quinta-feira, maio 10

Capítulo Especial (Ou Texto Sem Título)

À noite, não queria saber daqueles tantos botões e zípers e, principalmente, tecidos. Por mais que agraciassem o meu tato, eu queria tê-los e vê-los longe, bem longe, daqueles ombros que eu tanto beijei. E por toda a noite eu quis ver tantos panos e complicações bem longe, e por toda a noite eu os vi.
Assim como foi Otávio para a Roma Antiga¹, seu sorriso clareava nossos lençóis naquela manhã
gelada.  Instalei-me no seu pescoço, sorrindo sorrisos que invejavam aqueles seus dela. Deu-me beijos alvíssimos de tanta vontade: clarearíamos mais manchas nos lençóis cor-de-nuvem; chovia.
Fomos mundanos naquele início de tarde, nada de tão espetacular, porém nada de tão simplista. Beijava-me com mais sorrisos maravilhosos, remetendo-me a imagem daqueles ombros enrolados nas alvíssimas nuvens que forravam a nossa cama, sua pele tocava a nuvem, seu olhar perdeu-se (há muito) no infinito dos seus olhos fechados - uma distância tão curta, da retina à pálpebra, mas tão incabível a quaisquer universos - que trazia a serenidade de três estrelas e dois cometas, portanto, mais que de repente atei-me à cauda do seu cometa e cruzamos outros três planetas, outros três satélites, outras três estrelas; ateei-me o seu fogo, que consumia-me a iluminar quaisquer noites de lua nova.
Voltei à Terra com uma das gotas de chuva que se espatifou no vidro da sua janela; ela sorria para aquela chuva tão prateada, fiz-me cadente para tecer-lhe mais sorrisos de marfim. Enfim, desci para outro beijo receber.
Ainda chovia.
Eu sorri àquele cenário tão maravilhosamente formado, cada viagem estelar me ajudava a entender as dimensões dos ombros dela, digo, da beleza daqueles ombros dela. E para formar-me previsível eu diria que a cada gotinha que se estatelava no vidro gelado tornava seu marfim mais branco e mais valioso para mim, mas vou evitar clichês, não disse este.
Mas disse todas as juras e belezas de amor piegas que poderia crer essa nossa vã filosofia, e de Shakespeare a Poe eu provei que eram aqueles sorrisos e aquelas nuvens e aqueles ombros que me fizeram esquecer os astros e astronômicos quereres de me soltar na cauda de qualquer cometa. E disse-lhe ríspido e abrupto que o maior crime foi ela quem cometeu, e acometido de tantos sorrisos vertiginosamente belos, beijou-me de novo, enquanto ainda chovia, e chovia. Ela me roubou, para ela.


¹ Otávio para a Roma Antiga - Otávio foi o Princips Senatus e Imperator de Roma de 27 a.C. a 14 d.C., foi a época da Pax Romana, a época de ouro de Roma, graças a Otávio.


Em resumo? Te amo. E siiiiim, esse foi um texto estritamente muito apaixonado, e nem é segredo o meu alvo de tanta paixão.

segunda-feira, maio 7

Set tonight on fire

"Ela me queria. E eu também a queria. Logo, tudo pareceria perfeito para essa noite, não fosse a minha teimosia. É algo incontrolável, eu simplesmente me meto a ser indiferente para com tudo que eu adoraria dizer sim, talvez por medo de parecer previsível. No fim eu percebi que ela já sabia o que eu diria, querendo dizer-lhe sim (mas ainda não é o fim)."

Do bar, ela sorriu dois dedos de dentes pra mim, foi meio disfarçado, mas consegui ver sua felicidade expressando-se em sépia, talvez fumasse, talvez compartilhasse do meu gosto acafeinado por bebidas quentes. Vamos dançar? Tanto faz; e fomos.
As suas pernas eram incrivelmente incansáveis (o que eu constataria algumas horas depois), e pularam durante duas músicas, enquanto eu não saia de uma dança de sorrisos cansados e, mais ao fim da terceira sessão de ondas mecânicas repetitivas, gotejava a minha vontade de sentar-me com ela, tanto faz; e fomos. Sorriu-me mais algumas xícaras, não fumava, eu perguntei, e ria das minhas vontades de parar de dançar, sentar, deitar e rolar, não que ela soubesse de todas.
Uma, duas, oito vezes a língua dela beijava a minha, três, quatro, nove vezes a minha mão direita beijava as pernas dela, cinco, seis, dez tentativas até que eu conseguisse arrancar-lhe (de bom grado mútuo) o soutien. Era linda, eram lindos, era linda. Disse que adorou me beijar naquela noite, disse que adoraria se ela não fumasse depois, e disse que adoraria se eu calasse a boca e terminasse de tirar a roupa, tanto faz; e tirei-- digo, tiramos.
Era nítido o niilismo daqueles gemidos inconcebivelmente adocicados para mim, apalpar-lhe as costas úmidas, arranhar-lhe os quadris macios e sentir-lhe a virilha inconspícua seria meu óbito, logo, se fosse diabético, não era; o fiz. Fez-me feliz pelas três horas da manhã até às quatro e quinze, quando constatei a perseverança e disposição daquelas pernas desejadas: vamos dançar, tanto faz; e fomos-- não, ela parou assim que amarrou as sandálias, por que sempre tanto faz? Não sei, mas que importa, não sei, te faz mal? Tanto faz...; e fomos.
Dançamos por mais umas duas ou três horas até que as pernas pediram que lhe apalpassem novamente, dessa vez foi por não aguentarem mais se mexer, nem na pista, nem no piso. E foi o que constatei, enfim, quaisquer pernas, por mais belas e vigorosas que sejam, sempre pedirão massagem, e aquela língua que me beijou sempre massagearia-me a língua, em troca, logo, todas as pernas (as belas e as minhas, digo, as dela e as minhas) entrariam em outro momento de confraternização. Sempre haveria mãos que desatassem as sandálias, arranhassem as costas, sentissem os quadris e apalpassem as virilhas.
Quando ninguém mais fazia mais música alguma lá de cima do palco, no camarote exclusivo ao lado do bar - especialmente reservado pela minha amiga, a dona do lugar - ela me ouvia dedilhar as suas coxas e virilhas e então era eu quem ouvia e (indiretamente) fazia a sua música. E para fazer-lhe juz, leitor desgraçado¹, ao título, dedilhei para que minha aurora fosse mais quente, dedilhava para que a noite ainda tivesse fogo, tudo antes do amanhecer.
Posso pedir bis, tanto faz; e fomos, digo, fomos dedilhar e cantar até que o bar fechasse.

..

¹ leitor desgraçado - Se alguém tivesse lido Dom Casmurro, ou outro romance de Machado de Assis, teria rido... de novo.

Ok, perdoem minha mania de querer explicar coisinhas que eu acho interessantes, já me disseram para não explicar, que deixa a graça sem graça, e perdoem a minha vontade excessiva de querer me confundir, mas acontece que eu acabei entendendo cada palavra.

Pode-se dizer que 'Set tonight on fire' foi inspirado nesse trechinho:

"Rolamos pelo chão por um período incontável até que um som familiar penetrou nossos sentidos. Jim reconheceu-o primeiro e já estava descendo quando eu me sentei e ouvi os primeiros acordes de Light My Fire. A passagem de som ainda estava acontecendo? Eu coloquei minhas roupas, seguindo Jim, e, quando ele pegou o microfone, olhei para baixo e vi a platéia lotada se movendo! Eu estava no palco com o The Doors, meu queixo caído, arrastando meu casaco desengonçado, minha meia garrafa de Trimar e meus lenços ensopados, paralisada com o choque."
"Confissões de uma Groupie" de Pamela des Burres

Um trecho maior do livro.

sábado, maio 5

Capítulo XXXIII

"Continuei a alisar os cabelos, com muito cuidado, e dividi-os em duas porções iguais, para compor as duas tranças. Não as fiz logo, nem assim depressa, como podem supor os cabelereiros de ofício, mas devagar, devagarinho, saboreando pelo tato aqueles fios grossos, que eram parte dela. O trabalho era atrapalhado, às vezes por desazo¹, outras de propósito para desfazer o feito e refazê-lo. Os dedos roçavam na nuca da pequena ou nas espáduas vestidas de chita, e a sensação era um deleite. Mas, enfim, os cabelos iam acabando, por mais que eu os quisesse intermináveis. Não pedi ao céu que eles fossem tão longos como os da Aurora, porque não conhecia ainda essa divindade que os velhos poetas me apresentariam depois; mas, desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos, tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um número inominável de vezes. Se isto vos parecer enfático, desgraçado leitor, é que nunca penteastes uma pequena, nunca pusestes as mãos adolescentes na jovem cabeça de uma ninfa... Uma ninfa! Todo eu estou mitológico. Ainda há pouco, falando dos seus olhos de ressaca, cheguei a escrever Tétis²; risquei Tétis, risquemos ninfa; digamos somente uma criatura amada, palavra que envolve todas as potências cristãs e pagãs. Enfim, acabei as duas tranças. Onde estava a fita para atar-lhes as pontas? Em cima da mesa, um triste pedaço de fita enxovalhada. Juntei as pontas das tranças, uni-as por um laço, retoquei a obra alargando aqui, achatando ali, até que exclamei:
- Pronto!
- Estará bom?
- Veja no espelho.
Em vez de ir ao espelho, que pensais que fez Capitu? Não vos esqueçais que estava sentada, de costas para mim. Capitu derreou³ a cabeça, a tal ponto que me foi preciso acudir com as mãos e ampará-la; o espaldar da cadeira era baixo. Inclinei-me depois sobre ela, rosto a rosto, mas trocados, os olhos de uma na linha da boca do outro. Pedi-lhe que levantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar o pescoço. Cheguei a dizer-lhe que estava feia; mas nem esta razão a moveu.
- Levanta, Capitu!
Não quis, não levantou a cabeça, e ficamos assim a olhar um para o outro, até que ela abrochou os lábios, eu desci os meus e...
Grande foi a sensação do beijo; Capitu ergueu-se, rápida, eu recuei até a parede com uma espécie de vertigem, sem fala, os olhos escuros. Quando eles me clareavam, vi que Capitu tinha os seus no chão. Não me atrevi a dizer nada; ainda que quisesse, faltava-me língua. Preso, atordoado, não achava gesto nem ímpeto que me descolasse da parede e me atirasse a ela com mil palavras cálidas e mimosas..."

...os seus olhos de cigana oblíquos e dissimulados.


¹ desazo: s. m., falta de azo, de ensejo, oportunidade; falta de jeito; desmazelo.
² Tétis: Mitologia Grega
³ derreou: v. tr., fazer curvar as costas com peso, com pancada ou com dores; fazer descair os quadris.

de Dom Casmurro, Machado de Assis.

quarta-feira, maio 2

Unbelievable

"If it's not love
Then it's the bomb
the bomb the bomb
the bomb the bomb
the bomb the bomb
That will bring us together"


Toda vez que a música tocava o quarto sorria. Moz' sorria-me naquelas letras inflamadas e nas danças sem jeito de sempre: seu ápice de charme (depois do topete, obviamente).

"So never will wine-red rose or white,
Petal by petal, fall
On that stretch of mud and sand that lies
By the hideous prison-wall,
To tell the men who tramp the yard
That God's Son died for all."


Mordia-me o lábio ao ouvir-me recitar, gritava e gritava-me que queria me entregar, mas Wilde, no seu homossexualismo apical me deixava entristecer os pedidos da bela voz que me mordia os lábios.
E Moz' voltou absurdamente poético.

"On the Leeds side-streets that you slip down
Provincial towns you jog 'round
Hang the DJ, Hang the DJ, Hang the DJ
Hang the DJ, Hang the DJ, Hang the DJ"


E Wilde confirmava o absurdo lírico em lírios liricamente presos, digo, rosas...

"He lay as one who lies and dreams
In a pleasant meadow-land,
The watcher watched him as he slept,
And could not understand
How one could sleep so sweet a sleep
With a hangman close at hand?"


Moz' discorria sobre o absurdo, liricamente.

"Last night I dreamt
That somebody loved me
No hope, no harm
Just another false alarm

Last night I felt
Warm arms around me
No hope, no harm
Just another false alarm"


E Wilde...

"But there is no sleep when men must weep
Who never yet have wept:
So we—the fool, the fraud, the knave—
That endless vigil kept,
And through each brain on hands of pain
Another's terror crept."


Nesse dado momento eu fiz calarem-se, minha atenção já estava demasiada tomada por outras palavras de outras vozes e de outras líricas e de outras mesmices e suas metamorfoses.
Que dirá quem me visse sendo consumido por aqueles lábios intrepidamente e abruptamente deliciosos, quem quisesse Moz' que dissesse. E disse.

"Delight
See our faces are both shining
And I've never felt so wanted
Than when you cling with arms and legs

I tremble
You crush my burning lips like ashes
With so much skin to travel over
While my head spins (and you knew it would)"


Mas Wilde calou-se, não queria mais dizer sobre as pernas e seus lábios me querendo tanto como se quisesse a água purificada num purgatório, ou a vontade melancólica nos campos de margaridas altas e belas. Eu quero.
Mordia, mordia, mordia. E no alto de sua beleza violenta eu quis não querer parar, mas queria-me e queria-me mordendo meus desejos, fui degustado.
E como num piscar de olhos eu abri meus olhos, mas o teto do meu quarto não tinha as lâmpadas que eu queria, a porta do meu quarto não tinha a maçaneta que eu queria, a sujeira no meu chão não era a sujeira que eu queria, a vontade que me tinha não era a vontade que eu queria, a cama do meu quarto não era a (sua) cama que eu queria. Era a sua cama que eu queria, e eu repetia-me e me repetia que queria a sua cama, e as suas lâmpadas e as suas pernas e a sua sujeira e a sua maçaneta e o seu senso crítico e a sua voz me dizendo o que o Wilde disse, e a sua mão me dando a música do Moz' e a sua pele me chovendo na noite mais do que quente, era você que eu queria/é, quero.


--
Disclaimer e direitos:
Respectivamente, Moz' - Ask; Panic; Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me; Skin Storm
E Wilde - The Ballad Of Reading Gaol

Olha, pode parecer meio sem sentido, mas só faz jus ao título, entretanto, sonhos nunca tiveram que fazer sentido.

Ah, e me desculpem, só que se eu tive que explicar é por que não foi bom.

domingo, abril 29

21:54

Como acontecem todas as coisas ao mesmo tempo? Todas as pistas ao mesmo acaso, ao meu mesmo descaso. Tudo a me explodir e tudo a me ferir, e tudo tudo veio de mim.
Não me traga um paradoxo a tragar, não me tenha em traços de tristonho por irrelevâncias, eu não quero e nem nunca quis que eu fosse assim. Eu estava tão feliz, eu estava tão feliz...
E eu culpo os meus casuais vícios que eu odeio, os sorrisos molhados demais, não quero mais isso.
Eu quis mudar muitas vezes, mas o tédio e a preguiça não deixaram.  Eu quis, eu quero, eu sei lá.
Eu quero que você apareça, eu quero você. Não  há nada que você não cure em mim, não há ferida incicatrizável¹, eu quero a sua compreensão. Eu quero o seu hálito. "Eu quero o seu café e um zilhão de beijos em todas as manhãs e manhas dos nossos sorrisos de aurora."
Vem...

¹- E nem sei se há mesmo alguma ferida aqui agora, mas pela força da expressão...

sábado, abril 28

Capítulo Um - Ele


Sorria-me aquela mesma figura de sempre, que sempre me deixava a esperar um sorriso quando me via na cama, ou quando a via pelas nuvens, tanto faz, tanto fazia. Eu queria esperar, sempre, estou esperando.
As cores brancas revestindo os olhos brandos, por completo, levava-me a não tão longe de onde estou agora, sinceramente, era tudo igual, sempre o mesmo branco e a mesma brisa, meu rosto era maleável com a carência do vento que me corria por volta, me sorria de volta, e eu sorria também, e antes, e depois: sempre a mesma coisa. Tive a vida toda pra sofrer, e aproveitei, mas agora, é tudo sempre tão igual.
Pela primeira vez, ela estava longe e eu nem a percebi, não tinha visto. Ela que me veio falar, com um sorriso deslumbrante que me derreteu o gelo da apatia na hora. Após algumas leves informações sem relação com a história, e outros olhares dela, não meus, saímos dali, no tédio comum à nossa era, e paramos num Cyber Cafe perto de onde ela morava, eu pedi um capuccino, como de costume, e ela pediu chá, era uma mania comuns aos seus cabelos curtos, como de costume.
Conversamos por um tempo, e ela reclamou que tinha pedido leite, parecia apenas mais uma suburbaníssima entediada, com poucas perspectivas, apenas queria que houvesse a quantidade temperada de leite no chá, isso a fazia feliz, era suficientemente bom para ela. E era essa passividade que mais me incomodava.
Levemente enojado, me levantei, levando o copo na mão.
- Ah, a gente se vê. – e fui pela porta, soando o sininho ligeiramente ultrapassado que se deleitava ante a placa de acrílico, tocando enquanto o vento entrava e eu saía.
Logo na próxima esquina, senti umas mãos mornas no meu ombro.
- Espera, que houve? – Ela largara o chá por mim, e deixara o leite também. Nossa, eu preciso parar de ler tantos romances vitorianos.
Mas voltamos andando até a casa dela, e eu ri dela dizendo que detestava chá, mas que queria parecer inglesa para mim, agora a suburbanice dela estava controlada e aceitável. Fomos à casa dela. O capuccino estava delicioso, mas já havia bebido melhores.
O apartamento era pequeno, as portas brancas, as paredes brancas encardidas, o piso creme e abajures e lamparinas para todos os lados. Havia grandes janelas de vidro, que já iluminavam a sala suficientemente bem, bem demais.
¬¬- Eu gosto muito de morar aqui, lugares pequenos me deixam aconchegada e confortável. – A mim também, pensei, mas não disse, diria tantas coisas, se fosse sempre falar tudo que eu pensava. Ela tirou os sapatos e os pôs, enfileirados, do lado da porta, meticulosa demais, mas o quê é isso? ando reclamando de tudo.
- Sente-se, fique a vontade.
- Claro, mas onde ponho isso? – disse balançando o copo de isopor, e ela pegou o copo, com um sorriso amarelo e foi falando qualquer coisa enquanto ia até a cozinha e alcançava a lixeira, não era nada importante.
Eu amo café.
Meus dedos desenhavam xícaras nas suas costas marcadas pela blusinha, meus outros dedos arrancavam a alça azul do seu ombro direito. Meus dentes roçavam o ombro esquerdo, e as unhas marcavam suas costas. A blusinha caiu nas suas pernas, no perímetro de seus quadris.
Um dos meus orgulhos era nunca ter que resolver uma discussão na cama, nunca me coube essa saída, eu prefiro no sofá, na mesa, na banheira, se tiver. Cama é um lugar para noites felizes.
Eu a apoiava na mesinha de centro, com suas pernas me enlaçando, e meus dentes pelas suas costelas, nuas. E a blusinha já foi parar sobre o sofá. Eu ainda tinha as minhas calças, e ela apenas uma calcinha cor-de-creme. E enquanto ela levantava minha blusa, com as mãos nas minhas costas, eu ouvia os gemidos receosos e os mamilos dela me faziam sorrir. Mantive minha blusa no corpo.
Meu rosto descia pelo corpo dela sem uma marca de nada, ela era linda. E ficava linda gritando, mas poderia não ter dito que foi ótimo, antes de eu sair pela porta branca do apartamento dela, sem ter tirado sequer a minha blusa, nem tocado no zíper, eu não a quis.
Deu pra ouvir suas costas batendo na porta, enquanto descia as escadas do primeiro andar, e formou a cena na minha cabeça: ela sentada no chão, apoiada na mesma porta branca, com as mãos pelo corpo e um olhar meio desolado, fuzilando a calcinha sobre o abajur que eu derrubei. Não tinha gosto de café, mas eu gostei, mesmo tendo bebido melhores.

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...beijos.