sábado, abril 28

Capítulo Um - Ele


Sorria-me aquela mesma figura de sempre, que sempre me deixava a esperar um sorriso quando me via na cama, ou quando a via pelas nuvens, tanto faz, tanto fazia. Eu queria esperar, sempre, estou esperando.
As cores brancas revestindo os olhos brandos, por completo, levava-me a não tão longe de onde estou agora, sinceramente, era tudo igual, sempre o mesmo branco e a mesma brisa, meu rosto era maleável com a carência do vento que me corria por volta, me sorria de volta, e eu sorria também, e antes, e depois: sempre a mesma coisa. Tive a vida toda pra sofrer, e aproveitei, mas agora, é tudo sempre tão igual.
Pela primeira vez, ela estava longe e eu nem a percebi, não tinha visto. Ela que me veio falar, com um sorriso deslumbrante que me derreteu o gelo da apatia na hora. Após algumas leves informações sem relação com a história, e outros olhares dela, não meus, saímos dali, no tédio comum à nossa era, e paramos num Cyber Cafe perto de onde ela morava, eu pedi um capuccino, como de costume, e ela pediu chá, era uma mania comuns aos seus cabelos curtos, como de costume.
Conversamos por um tempo, e ela reclamou que tinha pedido leite, parecia apenas mais uma suburbaníssima entediada, com poucas perspectivas, apenas queria que houvesse a quantidade temperada de leite no chá, isso a fazia feliz, era suficientemente bom para ela. E era essa passividade que mais me incomodava.
Levemente enojado, me levantei, levando o copo na mão.
- Ah, a gente se vê. – e fui pela porta, soando o sininho ligeiramente ultrapassado que se deleitava ante a placa de acrílico, tocando enquanto o vento entrava e eu saía.
Logo na próxima esquina, senti umas mãos mornas no meu ombro.
- Espera, que houve? – Ela largara o chá por mim, e deixara o leite também. Nossa, eu preciso parar de ler tantos romances vitorianos.
Mas voltamos andando até a casa dela, e eu ri dela dizendo que detestava chá, mas que queria parecer inglesa para mim, agora a suburbanice dela estava controlada e aceitável. Fomos à casa dela. O capuccino estava delicioso, mas já havia bebido melhores.
O apartamento era pequeno, as portas brancas, as paredes brancas encardidas, o piso creme e abajures e lamparinas para todos os lados. Havia grandes janelas de vidro, que já iluminavam a sala suficientemente bem, bem demais.
¬¬- Eu gosto muito de morar aqui, lugares pequenos me deixam aconchegada e confortável. – A mim também, pensei, mas não disse, diria tantas coisas, se fosse sempre falar tudo que eu pensava. Ela tirou os sapatos e os pôs, enfileirados, do lado da porta, meticulosa demais, mas o quê é isso? ando reclamando de tudo.
- Sente-se, fique a vontade.
- Claro, mas onde ponho isso? – disse balançando o copo de isopor, e ela pegou o copo, com um sorriso amarelo e foi falando qualquer coisa enquanto ia até a cozinha e alcançava a lixeira, não era nada importante.
Eu amo café.
Meus dedos desenhavam xícaras nas suas costas marcadas pela blusinha, meus outros dedos arrancavam a alça azul do seu ombro direito. Meus dentes roçavam o ombro esquerdo, e as unhas marcavam suas costas. A blusinha caiu nas suas pernas, no perímetro de seus quadris.
Um dos meus orgulhos era nunca ter que resolver uma discussão na cama, nunca me coube essa saída, eu prefiro no sofá, na mesa, na banheira, se tiver. Cama é um lugar para noites felizes.
Eu a apoiava na mesinha de centro, com suas pernas me enlaçando, e meus dentes pelas suas costelas, nuas. E a blusinha já foi parar sobre o sofá. Eu ainda tinha as minhas calças, e ela apenas uma calcinha cor-de-creme. E enquanto ela levantava minha blusa, com as mãos nas minhas costas, eu ouvia os gemidos receosos e os mamilos dela me faziam sorrir. Mantive minha blusa no corpo.
Meu rosto descia pelo corpo dela sem uma marca de nada, ela era linda. E ficava linda gritando, mas poderia não ter dito que foi ótimo, antes de eu sair pela porta branca do apartamento dela, sem ter tirado sequer a minha blusa, nem tocado no zíper, eu não a quis.
Deu pra ouvir suas costas batendo na porta, enquanto descia as escadas do primeiro andar, e formou a cena na minha cabeça: ela sentada no chão, apoiada na mesma porta branca, com as mãos pelo corpo e um olhar meio desolado, fuzilando a calcinha sobre o abajur que eu derrubei. Não tinha gosto de café, mas eu gostei, mesmo tendo bebido melhores.

.


...beijos.


Nenhum comentário: