Quinta-feira, Janeiro 1

Do you like what you see?

Eu ando desarmado para evitar confusão. Mas tem dias que não tem jeito: estava claro e quase sem parte azul no céu, umas nuvens lindas e cinzas mesmo assim, eu estava de carro e fui no parque ver bezerras morrendo e refletir sobre isso. Meu joelho estava roxo por causa da igreja no fim de semana e minha cabeça doía nos flancos por causa do cinema da sexta feira. Meus olhos não doíam. Mas o que aconteceu foi que, naquela terça feira - tão bonita -, eu encontrei a N e ela nem me olhou na cara. Vi a M e ela nem me olhou na cara. Vi a C e ela nem me olhou na cara. Vi o G e ele nem me olhou na cara. Todos me olharam e viraram a cara, como em um sonho sem gosto. Nem pitanga. Nem acerola.
O sonho que parecia sonho ruim e nem era sonho de verdade continuou assim. Desesperadoramente, sem nem esperar chuva vir, eu sai de lá, entrei no carro, subi duas ruas e entrei pelos fundos do parque. Na minha cabeça, se me vissem por outro ângulo, talvez olhassem minha cara e então aceitariam me conhecer pelo que sou. Eles se esconderam. O único lugar que eu não procurei era atrás de mim, então presumo que estivessem lá, pois não os vi mais aquele dia. De fato, não os conhecia, mas queria bastante. Foi como ser rejeitado pela primeira vez. O primeiro não a gente sempre esquece, mas diz que não esquece para parecer profundo. Eu tinha tanta Terra dentro de mim, mas foram todas embora aos poucos e, obviamente, fiquei bem menos profundo por isso, então não faço questão de dizer sobre meu primeiro não.
Não é minha culpa. Nunca foi e nunca será minha culpa, porque minhas Terras são tão azuis e têm céu tão rajado, manchado, maculado e acinzentado que me levam-nas embora sem que tenha direito a contestação. Estou sem Terras em mim, estou mais raso que praia de ano novo, estou com saudades dos meus mundos e voltas e giros.
No final, era mesmo sonho - ou então tive amnésia e acordei no dia seguinte molhado de suor na cama. Eu ainda não conheço N e nem M e nem C e nem G, mas espero conhecê-los em breve. Espero ver um pôr-do-sol agora que meu cinza todo foi roubado, e espero conseguir pintar de novo, como um dia pintei meus plágios de Tarcila. Quero plagiar os seus poemas tirados de notícia de jornal. Quero tudo no próximo hotel. Quero mais do mesmo e tudo mais. Quero, mais do que isso tudo, um ponto decente para eu chamar de final dessa paródia sagrada da minha vida de espelho. E tchau


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Dois beijos.

1 comentários:

littlegiraffe... disse...

A princípio eu ia dizer "talvez vc viu as pessoas erradas", mas então eu li o final e desisti da idéia (mas acabei dizendo :D).

Pq a pitanga? Tinha que perguntar, fiquei curiosa. Não que vc tenha que responder.

Dois beijos