Sábado, Abril 11

Amálgamagma

Era silhueta subindo nuvens pretas e cinzas sobre cinzas e lava que escorria. A fumaça impressiona vãos olhares que se distraem do calor. A fumaça penetra olhares e os lacrimeja - sem emoção. A fumaça agora desce, adora descer assim. Ainda era silhueta que apalpava aqueles olhares de longe. Gostamos ser tão pouco físicos, em horas de contemplação. A pedido do tempo, não havia lava a molhar olhares em retidão tão plena, mas a mesma vontade que queima é a vontade que solda, cauteriza, tranquiliza. Através de um par de óculos, vimos o vulcão que já estava formado antes de o tempo dizer que nós existiríamos. A fumaça desenhava um corpo que podia ser tão observado quanto quisesse. O mundo ali era vermelho, você sabe.

Receio mirar-te. São seus olhos. Não, não tenho medo deles, mas da minha incapacidade de lidar com eles. Quando tento lê-los, são opacos, quando me julgam, transparentes. Por que se escondem? Por que me punem? Não entendo. Devo fazer algo de errado. Erro quando brinco? Peco quando falo? Desiludo-te quando ajo?

Mas será que realmente me importo? Meus defeitos são fato, mas não quero enxergá-los. E não aceito que os enxergue em meus olhos. Prefiro ignorar seus olhares quando estes me atrapalham a te enxergar como quero.
Pode me chamar de fútil se quiser, mas sei que não irá, porque se tem algo que jamais te deixarei ler em meus olhos é ser a sua silhueta o que mais quero. Isso é mais um defeito? Não responda. Se realmente fosse, não mais me quereria. Mas então, o que me resta? Insegurança. Quero avançar. Banhar-te no meu fogo. E só.

Sei, contudo, que almas não são lavadas com tanto fogo quanto insegurança pode queimar. Não há salvação em olhos que não olham, por medo de lentes que distorçam a realidade. O real é tão cru, quando não há calor. É frouxa a ironia entre a verdade crua e o vulcão que nos decepciona por ter ficado tempo demais esperando olhares. Esperamos que o vulcão nos exploda com calor suficiente para não termos medo de ver a realidade. Quero que a fumaça entre nos olhos, mesmo que lágrimas cedam. O mundo aqui é azul, desse jeito.

A fumaça que nos lacrimeja é o que concebo como necessário. É o algo único que nos afeta. Nada mais em comum. Nenhuma outra sensação compartilhada. Pois seus olhares não me afetam como os meus te afetam, e minha insegurança, sei, te queimará mais que o julgar do teu olhar. Mas algo mais pode haver em comum; algo que nos una em uma mesma consequência. Sei que a dissociação poderá nos conjugar. Agora, mudo: deixo a silhueta que desejo em outro mundo. Quero o real cozido pelo calor. Burbulhando escolho: explosão.

Explodindo, enfim, eu sei que desejo nós e lava. Como pureza em atos que despedaçam as piadas de tempo. Aos poucos, fomos atendidos, enquanto fumaça mesmo comia nossos olhos. A lava chegou em nós, e como que se fosse combinado, naquela hora, estávamos tão próximos que parecia desejo. Estava já quase grotesca a cena do final do filme, quando - depois de explodir - a lava unia nossos olhares, soldando os olhos, e a fumaça lavando os óculos, que quase caíram no vulcão. Uma erupção é o que faz explodir e depois crema - a nós, tão frágeis. Das cinzas viemos, em um mundo cinza estamos.

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PJ.

1 comentários:

littlegiraffe... disse...

Isso recitado deve arrepiar...

eu já li esse texto umas 3 vezes e ainda não consigui formular um comentário. Creio que não é do tipo que se comente.

De qualquer maneira, certos óculos deveriam ver além da fumaça e antes da explosão.

:*