sexta-feira, agosto 14

Um dia eu vou me vingar, e disse sem querer afirmar, com a mão sobre o rosto coberto de vergonha. Disse quase que sem querer, na verdade, com palavras sem acentuação ou qualquer desejo de morte. Só disse, porque dizer era o que faria valer as duas horas andando de volta para a casa. Passou que, no meio da tarde, o dia estava-se quase valendo nada, quando um desses homens bem vestidos quis falar-lher alguma coisa. Com uma das mãos no bolso e um sorriso, digamos, peculiar, veio comentar qualquer coisa sobre estar atrasado. Perguntou as horas, a outra mão saindo do terno preto-claro e apontando para seu pulso. Um daqueles relógios Casio de plástico. Preto. Atrás de um balcão mau-humardo, o rabo de cavalo bem apertado no topo da cabeça de uma atendente que competia com o próprio balcão, foi testemunha do rápido movimento de mãos. A mão que estava no bolso saiu tipo cobra e atacou seu bolso de trás, enquanto a mão estendida fazia puxar a mão do relógio, virando o corpo alguns poucos graus. A garçonete, entretanto, riu-se tão descarada e estampou o sorriso bem no meio do rosto. Amarelo. Algumas semanas antes, ele havia entrado no bar-restaurante-queria-que-fosse, comeu, bebeu e brincou, deu bom dia a todo mundo e depois arrumou confusão na hora de pagar. Dizendo que não foram quatro, mas somente dois pastéis. Foram quatro. Saiu pagando a metade, e com pinta de gostoso, sabendo que fez de propósito, como em conto de fadas onde ninguém repara que o mocinho é um mau mocinho, sabe? Ô Silveira, me arranja dois contos, fui assaltado. Mas o Silveira tava de férias. E a garçonete acenou ao homem de terno do outro lado da rua que fez um gesto obceno e um gesto de te-pego-na-sua-casa-lá-pelas-oito-boneca. Então, assim ele foi andando para a casa, murmurando que se vingaria. Ah, um dia!

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