sábado, setembro 8

Prelúdio

- Respeitável público! - bradou e seguiu o discurso do resto da noite. As linhas vermelhas curvaram-se nos semblantes dos palhaços e das pessoas. Pendiam tiras de carne nos trapézios que balançavam. Pirueteavam os bailarinos e os leões rugiam à majestade abstrata: o mágico na mágica magia circense.

Esta noite terminou como as outras, e as próximas também terminariam. Os anos terminavam em retos trajetos castanhos-tédio. A lona perdia a cor no discurso decorado e enfeitado do narrador. Circo cíclico. Repetiu o espetáculo, e os fogos fogueteavam novamente.

Sabia, no entanto, que seu incêndio haveria de chegar algum dia. Desejou uma faísca como quem deseja alguém. O diâmetro do picadeiro correspondia ao seu vício, exponencialmente, o tédio faria falta, se tudo finalmente queimasse. Circos não mais, foi procurar algo melhor, algo diferente. Partiu sem fogo.

O que faria um ex-picadeirista na urbanidade mecanicamente teórica? Até a prática era teórica. Acende a luz, anda, pára, roda, acena, sobe, espera, paga, gira, senta, levanta, aperta, desce, pára, apaga a luz, anda, chega, aperta, chama, basta. A cidade maquinava maravilhosamente, Os gritos e ruídos desordenados caiam na harmonia dos prédios altos e cinzas antes do céu espesso. Não há tédio no caos.

Copia, imprime, traga, acende, traga, volte na segunda-feira por favor, senhor, acende outro, traga, anda, pára, pede, compra, bebe a água, suspira, saboreia, bebe, joga no lixo, anda, vaga, olha, chama, anda, Pare!, pára, levanta a mão, entrega, raiva, pensa, desiste, parte. Pede, acende mais um, traga, Obrigado.

E o segundo dia vagueou assim, sem dinheiro, força-motriz do maquinário indiscutivelmente emocionante. A segunda-feira chegou no cinza da maravilha nova. Segundo ele próprio, o bem veio de volta para a vida, chutando o tédio, havia saudade, contudo.

Chegou segunda-feira. Cotidiano para Carlos seria cravejado, começou como começam cócegas em crianças, cotidiano sonoro. Ah, grande luz bonita e engraçada. Voltou.

- Trouxe, está tudo certo?
- Sim, gostamos dos seus papéis. Quer assinar contrato conosco?

Sorri, feliz, sorri, aperta a mão, sorri, pega a caneta, clica, desclica, clica, desclica, clica, assina, assina, assina, Aqui também, senhor, assina, sorri, desclica. Abre a porta, anda, acende, fecha a porta, traga, traga, tosse, traga, apaga, abre a porta, entra, fecha a porta, sorri.

- Quando posso começar?
- Entregue segunda-feira.
- Já?
- A próxima. Dá tempo?
- Claro, obrigado.


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Será?

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