segunda-feira, maio 7

Set tonight on fire

"Ela me queria. E eu também a queria. Logo, tudo pareceria perfeito para essa noite, não fosse a minha teimosia. É algo incontrolável, eu simplesmente me meto a ser indiferente para com tudo que eu adoraria dizer sim, talvez por medo de parecer previsível. No fim eu percebi que ela já sabia o que eu diria, querendo dizer-lhe sim (mas ainda não é o fim)."

Do bar, ela sorriu dois dedos de dentes pra mim, foi meio disfarçado, mas consegui ver sua felicidade expressando-se em sépia, talvez fumasse, talvez compartilhasse do meu gosto acafeinado por bebidas quentes. Vamos dançar? Tanto faz; e fomos.
As suas pernas eram incrivelmente incansáveis (o que eu constataria algumas horas depois), e pularam durante duas músicas, enquanto eu não saia de uma dança de sorrisos cansados e, mais ao fim da terceira sessão de ondas mecânicas repetitivas, gotejava a minha vontade de sentar-me com ela, tanto faz; e fomos. Sorriu-me mais algumas xícaras, não fumava, eu perguntei, e ria das minhas vontades de parar de dançar, sentar, deitar e rolar, não que ela soubesse de todas.
Uma, duas, oito vezes a língua dela beijava a minha, três, quatro, nove vezes a minha mão direita beijava as pernas dela, cinco, seis, dez tentativas até que eu conseguisse arrancar-lhe (de bom grado mútuo) o soutien. Era linda, eram lindos, era linda. Disse que adorou me beijar naquela noite, disse que adoraria se ela não fumasse depois, e disse que adoraria se eu calasse a boca e terminasse de tirar a roupa, tanto faz; e tirei-- digo, tiramos.
Era nítido o niilismo daqueles gemidos inconcebivelmente adocicados para mim, apalpar-lhe as costas úmidas, arranhar-lhe os quadris macios e sentir-lhe a virilha inconspícua seria meu óbito, logo, se fosse diabético, não era; o fiz. Fez-me feliz pelas três horas da manhã até às quatro e quinze, quando constatei a perseverança e disposição daquelas pernas desejadas: vamos dançar, tanto faz; e fomos-- não, ela parou assim que amarrou as sandálias, por que sempre tanto faz? Não sei, mas que importa, não sei, te faz mal? Tanto faz...; e fomos.
Dançamos por mais umas duas ou três horas até que as pernas pediram que lhe apalpassem novamente, dessa vez foi por não aguentarem mais se mexer, nem na pista, nem no piso. E foi o que constatei, enfim, quaisquer pernas, por mais belas e vigorosas que sejam, sempre pedirão massagem, e aquela língua que me beijou sempre massagearia-me a língua, em troca, logo, todas as pernas (as belas e as minhas, digo, as dela e as minhas) entrariam em outro momento de confraternização. Sempre haveria mãos que desatassem as sandálias, arranhassem as costas, sentissem os quadris e apalpassem as virilhas.
Quando ninguém mais fazia mais música alguma lá de cima do palco, no camarote exclusivo ao lado do bar - especialmente reservado pela minha amiga, a dona do lugar - ela me ouvia dedilhar as suas coxas e virilhas e então era eu quem ouvia e (indiretamente) fazia a sua música. E para fazer-lhe juz, leitor desgraçado¹, ao título, dedilhei para que minha aurora fosse mais quente, dedilhava para que a noite ainda tivesse fogo, tudo antes do amanhecer.
Posso pedir bis, tanto faz; e fomos, digo, fomos dedilhar e cantar até que o bar fechasse.

..

¹ leitor desgraçado - Se alguém tivesse lido Dom Casmurro, ou outro romance de Machado de Assis, teria rido... de novo.

Ok, perdoem minha mania de querer explicar coisinhas que eu acho interessantes, já me disseram para não explicar, que deixa a graça sem graça, e perdoem a minha vontade excessiva de querer me confundir, mas acontece que eu acabei entendendo cada palavra.

Pode-se dizer que 'Set tonight on fire' foi inspirado nesse trechinho:

"Rolamos pelo chão por um período incontável até que um som familiar penetrou nossos sentidos. Jim reconheceu-o primeiro e já estava descendo quando eu me sentei e ouvi os primeiros acordes de Light My Fire. A passagem de som ainda estava acontecendo? Eu coloquei minhas roupas, seguindo Jim, e, quando ele pegou o microfone, olhei para baixo e vi a platéia lotada se movendo! Eu estava no palco com o The Doors, meu queixo caído, arrastando meu casaco desengonçado, minha meia garrafa de Trimar e meus lenços ensopados, paralisada com o choque."
"Confissões de uma Groupie" de Pamela des Burres

Um trecho maior do livro.

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