terça-feira, maio 15

Eu, ela, Álvares, Cazuza e o bilhete escondido.

É ela! É ela! - murmurei tremendo,
E o eco ao longe murmurou - é ela!
Eu a vi... minha fada aérea e pura

Sibilava à minha consciência, docemente ao ver, introspectivo, as minhas memórias cinemáticas. Meu movimentos maravilhados de toda a vida, digo, da vida de que me lembra até o dado momento, enfim, era mesmo ela.

Amor da minha vida
Daqui até a eternidade
Nossos destinos foram traçados
Na maternidade.

Este gritou num canto melódico e maravilhosamente macio. Sorri. Troquei o rolo da película, para ver outro videoclipe da minha obsessão.

Esta noite eu ousei mais atrevido
Nas telhas que estalavam nos meus passos
Ir espiar seu venturoso sono,
Vê-la mais bela de Morfeu nos braços!

Acalma-me a calma desta voz, recitando esta sua mente frutiferamente decomposta. E ecoando o seu eco fora de controle. Enquanto aquela outra voz me dançava os pés e os ombros no mesmo e mesmo canto repetido - e por isso auto-odiado - que eu amava, e amo.

Estamos, meu bem, por um triz
Pro dia nascer feliz
Pro dia nascer feliz
O mundo acordar
E a gente dormir, domir.

O sono, porém, não me prendia nos seus desejos sinuosos. Meu querer era bem mais que bem-demais-querer, era muito muito mais que o estritamente necessário, era obsessivo, era lha-querer, a ela e somente, tudo por ela, profundamente. É ela, é ela, é ela. Mais ecos.

Quase caí na rua desmaiado!
Afastei a janela, entrei medroso...
Palpitava-lhe o seio adormecido...
Fui beijá-la... roubei do seio dela
Um bilhete que estava ali metido...

Roubei do sono dela, meu beijo mais que querido, este porém exagerou a minha lembrança, não havia rua alguma para que eu caísse (ou quase caísse), ao meu ver - o olhar mais que intermitente - a janela nada mais seria que nossos lençóis mal-passados, emoldurando toda aquela compostura mui bela. Beijei-a. Seu bilhete, sim, havia, para tal grande surpresa. Li:

Faço promessas malucas
Tão curtas quanto um sonho bom
Se eu te escondo a verdade, baby,
É pra te proteger da solidão.

De súbito quase acometi-me de tal desmaio que aqui outrora tratei, mas apenas quase. Era susto, era medo, era intenso, era gagueira, era pavor, era paranóia, não, nada mais era que amor. E para manter-me o mais clichê possível, repito esta rima mais que prosaica: "... era pavor, era paranóia, não, nada mais era que amor." O que esconderia? Precipitou-se, o primeiro, a seu respeito dela.

Não mais!
Oh! Nunca mais!

Entretanto...

Solidão, que nada!

Fazia-me e faziam-me - fazíamos de mim - confuso.

Eu deixo a vida como deixa o tédio.

O meu tesão... agora é risco de vida!
Será?

E no ápice de meu desentendimento ela moveu-se, com outro de seus sorrisos instigantes - e meigos. Era um sorriso interessante, o sorriso de quem sabia de todas as perguntas da minha cabeça. Apoiou-se nos cotovelos, ajeitou os lençóis brancos. Sorriu-me outro beijo, ou beijou-me outro sorriso, ou ainda calou-me as perguntas com seu hálito de felicidade, sorri por dentro. Pegou-me a mão e tocou-a no seu ventre, com o máximo da pureza e o dobro da luxúria.
Logo, fez-se tudo claro, as palavras fizeram-se entendidas, o bilhete daqueles seios benquistos era mais alvo que nosso próprio desejo, intermitente.
Disse-me ela pela sua própria boca, mas pelas palavras daquele primeiro (lembram-se quem?):

Talvez que Deus me dê, curvado e mudo,
Nos eflúvios do amor libar um beijo,
Morrer nos lábios dele.

Quisera eu ter palavras (minhas) para responder a altura. Tomei as do segundo para fazer-me a nossa felicidade. Fiz meu sorriso malicioso de quem quer cantar, cantando:

Eu quero a sorte de um amor tranqüilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva.

Com outro sorriso sabido, ela respondeu.

Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia.

E eu.

E ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia.

Surpreendentemente, completou-nos o segundo, era sua própria autoria.

Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum veneno anti-monotonia.

Ceresta, serenata, luau - sem praia - ou o que fosse, cantávamos. Eu, ela e Cazuza.

E se eu achar a tua fonte escondida
Te alcanço em cheio, o mel e a ferida
E o corpo inteiro como um furacão
Boca, nuca, mão e a tua mente não.

Para então, a maior surpresa daqueles tempos, talvez maior até que o ventre dela..., o primeiro, o mais velho, o mais talentoso, o mais libertino e o mais romântico, o mais Álvares, o mais de Azevedo.

Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum remédio que me dê alegria.

Não que eu realmente acreditasse que ele pudesse saber desse remédio e dessa alegria, e desses beijos e dessa nossa comida. Mas palavras são palavras, sonhos são sonhos, e memórias também.
A sessão acabou, rapazes. Então, agora é hora da sessão coruja.

Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor
Meu amor, meu amor, meu amor...

A lâmpada apagou-se.

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