Fazer sentido perdeu a graça quando o meu pé andou pela primeira vez. Mas no fundo, todos somos sem-graça, e sem razão para não ser. Quando eu olho agora para o espelho, está cedo e sinto o cheiro de café com sol novo, a luz vermelha chegando e atrapalhando a ver o meu rosto, neste momento eu percebo o qual grande é esse cômodo. Eu era pequeno e ficava imaginando como seria ser cego, um dos passatempos da época era andar no escuro dentro de casa, testando minha memória e tudo mais. Mas eu mudei, e me mudei algumas vezes. Com os olhos abertos, agora consigo ver que esse quarto é bem maior do que eu tinha na cabeça. Acho que meus olhos ficariam piscando de teimosos se eu tentasse andar sem eles agora. Vai ver é medo de chutar alguma coisa ou tropeçar.
Há um tempo atrás, li em algum lugar que não se deve se dizer "da última vez que..." como se referindo ao acontecimento mais recente. Último sendo uma palavra muito terminal para isso. Como que desejando que o último filme que você viu, seja o último filme que vai ver. Pensei nisso algumas vezes, mas da última vez que veio na cabeça, achei uma enorme bobagem, então não pensei mais nisso. O que acaba sendo engraçado por ser o tipo de coisa que você pensa no começo da manhã e nunca entende o porquê.
O sol fez um raio comprido que me fez perceber a distância entre meu rosto e o espelho. A luz acendeu a cor dos olhos e incomodou um pouco a visão. Mas mais do que nunca está clara a distância tão enorme nessa proximidade. Os raios aos poucos batem no rosto do espelho e vão retornando pra janela, cruzando com os novos raios chegando no início da manhã. No entanto, nem precisam pedir desculpas uns aos outros, não esbarram, pois se encaixam tão bem no ir-e-vir danado.
Olho pra janela agora, e o sol quase grita o meu nome, queimando lá fora, ficando cada vez mais amarelo, como o meu sorriso quando eu te disse tchau pela última vez. Com a janela aberta e os olhos te encarando sob/re o mar, fico assistindo à sua ascensão. Da outra vez, não tive tempo nem cabeça para completar o discurso com os raios que eu tinha imaginado. Fazendo refletir mesmo sem espelho até que toda a luz voltasse até você, em oito longos segundos, ou em quase quinze minutos. Já quis agradecer pelo que representa, já quis dizer que foi ótimo estar com você, Sol, nesses momentos até hoje, mas nada disso faz sentido, nada disso tem graça. Não estamos nos despedindo para sempre, no máximo, te vejo amanhã - mas provavelmente vou ver ainda hoje, é só o início da manhã.
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Carinho e os direitos autorais, claro.
Um comentário:
A distância na proximidade...
Muito bonito seu Cariño.
Gracias.
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