quinta-feira, abril 15

Pinophyta #3


As ondas não paravam. Era possível sentir a maré crescer e baixar e voltar, e batia sem cansaço. Ainda assim, era como se toda a música fosse o fundo para uma estória protagonista naqueles olhos sem molhar - estávamos ali pela desculpa da música, das ondas batendo. De vez em quando, via-se tudo se revoltando, como uma dança despreocupada, fazendo a música do lugar crescer e mudar e sorrir (se você consegue abstrair para a cena).
Alguns passos e caminhadas, os pés juntos na areia de temperatura duvidosa, levaram a cantos diferentes na música. Dançávamos agora. No distúrbio da areia e gozo das ondas, que ainda batiam sem querer e jamais jamais parar. Os cantos eram confortáveis naquela hora do dia.
Um copo de vinho gelado. Um corpo gelado. Na proposta sulista, aparece aquele cara, singelo, rindo sem mostrar a barba atraente e oferece altruísta e demagogo: um copo de vinho gelado. Sorri e vai para os outros cantos. O copo, então, nos divide na revolução de todas as gotas. Ela não bebeu. Bebi sozinho porque disse que prefere outros momentos, outros copos e a sensação. O corpo gelado.
Com a solitária visão do fundo do copo, todos os sons quiseram parar - mas continuaram a sussurrar instintos naturais e frágeis regras. O fundo do corpo e suas regras inscritas. Ela não ouviria meus instintos assoprados. Não ouviria os passos dos meus pés querendo dançar. Não sequer quereria ver ou ouvir todos os vapores de um copo vazio dentro de mim. Um corpo vazio dentro de mim. Sussurravam os velhos instintos a uma ideologia fraca e quebradiça que não consigo fazer fluir clockwork.
O que seria quebrar regras para você, hoje? E nada conseguiu surrar minha boca - sequer sussurros (com o perdão da rima) - e sair nos vapores do vinho, que subiam e não cessavam. Novamente sentia-se no ar todas as árvores do país caindo e doendo no cerne da floresta; como se os gritos que nem sabem se são ouvidos se ninguém vê exalassem completamente sobre aquele momento a destituição do meu conforto pelos cantos. No meio da minha testa.
A noite surge com palavras que queiram responder mas mudam de opinião e serviram para apenas outra pergunta descabida para tantas aquelas ondas. E então? Nada mesmo subiria uma resposta para me satisfazer e as ondas então se voltam para me empurrar em uma assaz destemida tentativa demais frustrada. No escuro que ninguém vê ouvindo árvores caindo em florestas sem ninguém, que ninguém ouve; eu vejo seu rosto. Seu rosto sorri e ri quase despreocupado com as mãos se cobrindo para outra minha resposta mal-dada.
As Ondas param. As ondas param e agora vemos nada mais que um lago no silêncio do encantos de seus reflexos. A caminhada e as curvas - e você não pode não saber do que estou falando. Os suspiros agora me surram sem dar-me mais respostas desdenhadas. Ah! como queria ter as lembranças e os vícios desprendidos dos chocolates do Pessoa. Mas esse vício de respostas, cantos e ondas vai me destruir novamente. Nada é mais cabido.
"Isso não precisa atrapalhar nada."

Um comentário:

Paula Ceotto disse...

Só estava passando por aqui, não mentindo dizendo que entendi e perguntando-me por que tanta bebida na série 'pinophyta'.
Enfim, como falou o último itálico entre aspas: isso não precisa atrapalhar nada.
Só queria comentar mesmo dos seus novos (?) tags (a mim me parecem novos, só os vi agora): tornaram-se mais compreensíveis.
Depois dessas minhas impertinências, digo bye e até mais.