
Estamos no inverno. Sinto o tempo passar como se estivesse no corredor vazio. Faz tempo que ninguém passa por aqui, nem mesmo o próprio tempo dá as caras. Uma, duas, três marcas diferentes para me fazer ter certeza de toda essa cena. Sinto como se nada houvesse, ainda que eu estivesse falando para várias pessoas, em pé, andando para os lados, gesticulando e até rindo. Mas dali da frente, era como se nada houvesse. Eu via a sala, com suas cadeiras estofadas azuis e todas as pessoas eram variações de um contínuo espaço-tempo que eu mesmo inventei. Vultos que transformam as cores do lugar, mas verdadeiramente vazios.
Sinto o metal arranhando em cima, mas quando olho, a cena se dissipa. Volto a ouvir o trincar do vidro, como se estivessem arremessando uma garrafa em mim. Quando olho para cima, meus reflexos me falham e só vejo o teto. Resolvo me sentar com uma desculpa qualquer para me calar.
Toda a abstração possível surge no conflito entre o olho direito - que vê partes do nariz - e a imagem ambígua ou oposta do olho esquerdo - relembrando o outro lado do nariz. Discutem com toda a ênfase que os olhos podem ter, e quando se olharem novamente, verão faíscas surgirem rapidamente - e sumirem rapidamente, como toda faísca. Mas os olhos lutam enfáticos e se dispersam nas linhas e poros que desprendem sua atenção. Verão os meses passando naquela estação.
Ainda estou na sala e agora percebo que deveria prestar atenção na batalha que se travava com todo aquele silêncio. Era perturbador ouvir os estalos que batiam no papel agressivamente produzindo erros que só sangrariam um professor que se prezasse. Não me atingem. Escaramuça é um conflito. Escaramuça é também uma batalha vencida com um esforço abnormal decisivo. Stratego. Estradas. Escaramuças, skirmish. E na estrada eu tento voltar para a sala cheia de vultos, meu corpo... e o dela, que não presta atenção em uma palavra que eu digo quando tento falar, mas sorri para as coisas que eu tento fazer rir.
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