Duas semanas de atraso me conferiam quase dois dígitos de multa naquele boleto bancário esquecido sobre a televisão, tudo bem, eu vou lá pagar agora. O sol me incomodava um pouco, mas algo suportável com a brisa inexplicavelmente fria.
- Por favor, em qual guichê eu pago isso?
E é claro que a atendente apontou o que tinha a maior fila, mas eu tinha que pagar isso hoje, amanhã eu teria uma viagem de três semanas para Florença. O café de lá é bom, muito bom.
Até que a fila desapareceu depressa e em trinta minutos a mulher gorda me disse que faltava um certificado da loja, e disse qualquer coisa que eu não ouvi, o certificado ficou na gaveta do criado-mudo. Florença valeria os litros de gasolina que eu gastaria, se não estivesse andando a pé.
Olha só, era a mesma garota de cabelos curtos daquele dia, no mesmo Cyber Cafe daquele dia, bebendo... o mesmo chá.
Eu gostei de tocar aquele sininho ultrapassado, de novo.
- Eu pensei que você detestasse chá. – ela deve detestar, cuspiu na mesa o que estava na boca, e saltou de susto com minha frase.
- E olha só, o mesmo capuccino?
- Não, esse tem creme. – e um sorriso nada mais nada menos que suburbano, estava tudo igual à antes, mas os olhares apavorados dela não transmitiam a timidez de antes.
Inclusive repetiu-se a mão morna no meu ombro, embora eu estivesse indo para o lado oposto.
- Vamos, quero te mostrar uma coisa. – e o sorriso dela se encarregou de dizer meu sim.
E duas horas depois eu ouvi o mesmo baque na mesma porta, mas que tédio, me sinto num replay com ela. Definitivamente, sem creme é mais gostoso.
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