domingo, julho 1

Chamber à Coucher #1

O corpo dela trovejou, esguio, sucumbindo entre os escombros. As agruras incessantes redecoravam minhas vestes em arte final escarlate. E ela sorria ao sonho que torturava-me; cordas acordaram-me a açoites, e eu sorri às trevas infinitas escondidas defronte à minha pupila.

"Meu mestre quer que você me acompanhe, devasso." Soou a voz doce, fina, e congelante.

Então nada mais restou, nem pedra, nem olhos, nem dentes ou rios ou céus. Fora eu, o devasso, descendo da masmorra, girava espiralando, temendo, sussurrando. Descia, cadente, o vertente da torre lânguida e tardia, e eu ia como cometa, como pedra, acometido da queda, ao túmulo, à cripta, à tumba. Sei que eu morreria.

"Sorria! Pacata será sua morte. Ou me desobedeça, e assim não bastaria só sua morte, devasso, mas o sodomizaria até que não aguente mais gemer!" Agora a voz vinha ríspida e em tons cantantes, metálica e sonora, voz determinada, voz dominadora. Era a voz do mestre.

A outra puxou as tiras de couro, com ferrões ao fim, que desceram soturnos fazendo cravar na minha carne o grito que fugia pela boca desvirginando os ouvidos ímpios, porém belos. E vi aqueles belíssimos dentes cerrados, em um sorriso sádico, entre lábios delicados de mulher, "Grita mais, devasso!"

E eu gritei, escondendo a tara e o prazer: suspirei sadomasoquismo.
O mestre, obscuro em seu trono, voltou a dizer. "Escolha, meu amor.

Vai sorrir e assentir?" Fez um aceno, fez-se um estalar de chicote, fez-se respingar meu sangue no chão de assoalho requintado. Não sei se era carvalho ou cedro, era escuro e avermelhado e pegajoso. "Ou quer parecer forte e tentar resistir?" Outro aceno, outro estalo, o mesmo chicote, as mesmas costas, mais sangue, no mesmo assoalho; era carvalho, idiota!

Minhas mãos correram o assoalho, os desenhos e os riscos da madeira. Desenhado em estilo vitoriano, era elegante, mas demodè. Era suave, dava pra sentir os detalhes de quando se lixou a madeira, a leve aspereza. Os pés não sentiriam, as mãos só se fossem bem treinadas. Mas o rosto sentia, sentia perfeitamente cada linha descrita ali. A bochecha esmagada entre os caros desenhos inscritos, naquele momento desejei que ficassem impressas as marcas da madeira no meu rosto. Mas, do outro lado, ficava marcado o salto fino da lacaia. Uma mancha vermelha ia se formando sob seus pés, sobre meu rosto.

"Responda!" Pude ouvir seus lábios tremerem, com excesso de saliva, e excesso de ansiedade. O mestre estava nervoso! Isso é algo raro. Nos quatro anos em que o servi como cachorro, pisando no rosto de pessoas bem menos interessadas por assoalho, nesses quatro anos ele nunca havia se alterado. Mas agora, por minha causa! E essa é apenas a minha primeira semana. Parece que eu represento mais do que imaginava. Sorri, profundo e feliz. Ele parecia estar abalado com meu silêncio!

Isso é mágico! Não respondi.

Suas botas tocaram o chão, rígidas e lustrosas. O trono foi abandonado, desceu os três degraus, ainda de carvalho. Chegou-se perto de mim e pôde ver meu sorriso, sei que pra ele era extremamente ameaçador. Ver seu rosto me impressionava. Era branco, contornado praticamente por feixes bruscamente despenteados de não-luz, impostas como moldura. Seus lábios eram levemente rosados, levemente finos, levemente molhados, mas pesavam os maxilares na minha pele, outrora. Vi sua língua sair, umedecendo os lábios, definitivamente. A língua era linda e precisa. "Está se divertindo me deixando ansioso, devasso?"

Não aguentei, ri. A lacaia deve ter se espantado, pois a pressão sobre meu rosto diminuiu. O mestre tocou o ombro dela e ela retribuiu um sorriso amarelo e se retirou, deixando o chicote em suas mãos. Deu-me um chute de leve na barriga. Pôs os pés nas minhas costas, e pressionou. Em
meio a seus breves risos incontidos ele tentou soar sua voz metálica.

"Pare de rir, meu amor." E chegou-se mais perto, agarrando a corrente da coleira que me prendia. Puxou ríspido e os ossos do meu pescoço estalaram, lançando-me pra mais perto dele. Curvou-se e me encarou por alguns segundos, mantendo o rosto perto do meu, empunhando a corrente que cintilava na pouca luz do aposento, ressoava o metal no carvalho. Suas mãos aproximavam meu pescoço. Já não via o fundo, minha visão terminava no rosto dele, a beleza, a plenitude, a calma.

“Você é meu.”

Senti meu pescoço sumir quando ele me tocou, na nuca. Era anestésico, os grilhões não me importunavam, a cinta com ferrões muito menos. Sua mão esquerda pendendo em minha nuca, com carícias disfarçadas enquanto sua língua extremamente precisa me derretia sob o céu estranho da minha boca.

Um comentário:

CuteDevil disse...

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAHAHAHAHAHA
bárbara, bestão. :P