Há algum tempo atrás, recebi na minha caixa de correio um envelope vermelho que dizia sobre oportunidades de trabalho fora do país. Abri-o na cozinha, para ter certeza do que eu poderia ou não fazer. A cozinha, oficialmente, era o centro da casa, onde o fogo estava, de onde o calor irradiava, a comida se fazia. Mas hoje em dia, corremos do calor. Mas ainda faz sentido para mim. No envelope, havia um convite, mais do que um informativo, para cursar Fotografia, Design Gráfico, Processamento de Dados, Hotelaria ou Engenharias fora do país, o que é ótimo no momento. Minha cozinha me fez perceber que não há porque não ir. O país era verde, e verde é bom. A vista era revigorante na ida, de avião, e eu não saberia explicar como foi na volta, porque não sei dizer uma emoção ou um adjetivo qualquer para o que acontecia comigo. Era como caminhar no sol, ao léu, mas a bem de vagar.
Fiquei queimando na fila dos Correios, era quase meio-dia. Enviei uma carta na mesma hora que eu entendi o que estava acontecendo, mas não foi o suficiente, ao que parece. Entretanto, enviei outra no mesmo dia em que viajou, mas também não deu em nada. Por duas semanas. Então recebi uma carta-resposta, o colega de quarto disse para eu enviar uma outra carta para fora, mas seu tom de voz me perguntou sozinho se era mesmo isso que eu queria. Claro que era o que eu queria, mas quando alguém te pergunta, confirmando certeza, várias vezes a certeza foge feito fogo. Quando terminei de ler, decidi escrever, enfim, e quando terminei de escrever, decidi que melhor seria não pensar nisso agora e fui ler o livro.
As letras e palavras se encaixam nem sempre perfeitamente, mas as frases e os parágrafos são como peças de Tetris para a minha vontade de viajar. A estória sobre vida e morte e viagens e eu-mesmo e todas essas coisas que todo mundo quer escrever bem. Algumas vezes, simplesmente encaixa tão bem que, no final da linha, você sente que todo o peso sumiu. Eu me sinto livre quando termino de ler os livros desse cara, que realmente me faz acreditar que morrer é feliz também. Terminei uma escala agora, no momento estou nos Estados Unidos, e em algumas horas volto pro Brasil. Faz um ano que eu não sinto aquele calor.
Decidi cozinhar essa noite. Não fazia frio, mas tive vontade de tomar sopa. Gosto de sentir o final da garganta bastante aquecido no final da última colherada. Couve-flor. E o sabor no fundo faz o dia parecer que não foi perdido, se parar para pensar. Qual seria o próximo inusitado ingrediente? Talvez dê certo. E deu, foi uma receita que, algum tempo depois, gerou bastante coisa na minha vida. No final do dia, enquanto estava me preparando para ir ler e dormir, o colega de quarto me ligou, dizendo que ele chegava na manhã seguinte. E desligou sem esperar a resposta. A frase poderia ter sido ambígua, mas todo mundo que ouve sabe que não é. Havia algum tempo desde que eu tivesse pensado nisso pela última vez. Não cheguei a enviar a carta. Primeiro por ficar pensando demais na minha certeza, quando me decidi, não tinha o endereço e sabia que não iria perguntar para ninguém.
No aeroporto em São Paulo eu vi que minha bagagem estava completa e não tive problema nenhum com a alfândega. Trouxe várias lembranças de lá, não sei se as pessoas vão gostar, mas espero que saibam que são de coração. Embarquei no vôo para casa. Não sou do tipo que faz coisas para desagradar ninguém.
Bateram à porta. E me perguntei porque não usaram o interfone.
Bati na porta. Eu detesto estragar a surpresa com interfones.
Nessa hora, por mais forte que eu estivesse, senti um pouco dos joelhos, mas não deixei nem que eu reparasse que os joelhos quase fraquejaram. Isso mesmo, quase fraquejaram, não fraquejaram de fato. Mas parei perto da porta, antes de olhar pelo olho mágico.
Eu estava muito nervoso nessa hora, afinal já se passou um ano e mais alguns trocados desde a última vez, eu não sabia o que esperar, não sabia o que havia mudado. Ninguém atendeu.
Bateram de novo.
Bati de novo.
Abri a porta sem olhar. Bem devagar. Na verdade, acho que foi em uma velocidade normal, mas nessas horas tudo parece câmera lenta.
A porta se abriu normalmente e eu vi tudo o que mudou lá dentro. Mas por um instante, parecia câmera lenta.
Do lado de fora da porta, olhou pra mim com cara de dúvida e perguntou meu nome, para confirmar. Confirmei, assinei e peguei o envelope e a caixa embrulhada. Bom dia. E então o carteiro foi embora para o andar de cima sem fazer cerimônia para entregar as outras encomendas. O envelope não era para mim. Mas abri a caixa, que era.
Do lado de dentro da porta, ela me olhava com os olhos cheios. E me recebeu com um sorriso incrível, jogando minhas coisas no chão enquanto me abraçava com todo o carinho que eu recebi nesse ano inteiro. Não que não tivesse feitos ótimos amigos e conhecidos por lá, mas nenhum deles vai superar o carinho da minha mãe. Muito menos da minha mãe com saudades. Entrei e contei muitas coisas. Deixei no chão minhas coisas e entreguei o presente dela enquanto bebíamos café, meu pedido. Como fazia falta. Disse que deixaria as coisas ali por hoje, porque tinha que ir visitar uma pessoa que deveria estar me esperando. Ela entendeu.
Dentro da caixa. Entendi como se fosse mágica. Havia os dois livros que ele me disse que me daria assim que encontrasse. Eram edições estrangeiras, com capas bonitas e um menor envelope dentro do segundo livro, que eu demorei para encontrar, porque fiquei folheando o outro com cuidado. Era um envelope vermelho. Falava sobre oportunidades de trabalho fora do país. Na verdade, era praticamente um convite.
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Com todo o respeito de um ladrão de idéias, Paula.
3 comentários:
Eu adorei o texto, mas o máximo que minha atual capacidade mental me deixa comentar são essas quatro palavrinhas a seguir:
Adoro sopa, adoro café.
A vírgula é brinde - sem envelopes vermelhos.
Eu já devia ter comentado esse texto, mas não sabia bem o que dizer. Não que eu saiba agora. Acho que os parágrafos deram nós nos meus neurônios. Creio que falam de realidades paralelas (espero que seja isso mesmo e que não soe óbvio). Seja lá o que for, essa estória brincou com meu raciocínio... e continua brincando. Engraçado... Minha idéia inspirou um texto seu que é demais para o meu QI.
=)
Editei o texto, gostei mais dele organizado.
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