quinta-feira, agosto 2

Mea Culpa

"Pode-se sentir saudade de muita coisa: de alguém falecido, de alguém que amamos e está longe ou ausente, de um amigo querido, de alguém ou algo que não vemos há imenso tempo, de alguém que não conversamos há muito tempo, de lugares, de comida, de situações."
Saudade, a sétima palavra mais difícil de ser traduzida *¹*. Não me queiras, saudades, esqueça-me.

Esquecer se trata de perder as lembranças, a memória. Disseram-me que memória é o conjunto de funções psíquicas pelas quais temos consciência do passado como tal, que inclui a fixação, a conservação, a lembrança e o reconhecimento dos acontecimentos. De início eu revoltei-me abissalmente, minhas lembranças são muito mais que isto, elas não cabem entre duas ou três folhas de papel, não valem apenas as notas verdes, azuis ou composições binárias incolores. Então eu decidi pensar outra vez.

Fixação é o apego exagerado, doentio, a uma pessoa ou a uma coisa. A fixação compõe quaisquer lembranças, desde o aniversário sétimo que eu não tive, até a décima oitava faixa do CD que eu não tenho. Eu sou fixação, sou fixo, afixado, fichado e lacrado. Eu sou minha memória, e apenas sou, conseqüentemente, a fixação faz parte de mim.

Conservação sempre me intrigou, magoou, e irritou, a não ser dentro dos museus de cera das vontades inacabadas do Vincent *²*, pobre diabo que morreu antes de saber seu preço. Conservação mantém-me preso às memórias, conservação ata-me a mim mesmo, afixa-me na mesma ladainha.

Lembrança, memória, tudo o que eu disser soará como auto-flagelo, auto-biografia, auto-retrato, metalinguagem.

Reconhecimento dos acontecimentos me sugere exatamente a dose exata de cacofonia barata de que eu preciso para manter-me tão saudosista daquele meu futuro promissor como agente do cartório sem pena, sem pena e sem dó de perder a cabeça. Uni-vos.

Eu precisava colocar a minha cabeça no lugar para perceber que meu muro não será destruido comigo em cima. As bombas são minhas, as armas são minhas, os gritos são memórias de algum axiônio destraído. Eu mantenho-me preso ao tango e aos cavalos, mantenho-me preso ao casaco e ao sapato, ao cabelo e ao pescoço. Tudo por culpa da memória, das lembranças, das memórias, do telefone que me lembra de acordar. Dos bilhetes que me esqueço de ler.

Afirmo que a memória é sim o conjunto de funções psíquicas pelas quais temos consciência do passado, com prazer em repudiá-la, cruel, cruelmente.  Sói sermos sóis, sois seus, somos simples sóis nossos. Eu e ela somos nós, eu sou a memória que é ela que é.

Destarte descarte todas as metáforas, continuaria confuso com minhas palavras, sete vezes confuso, cinco sonhos difusos. Aquele que tem entendimento, calcule o número da casa onde quero ir, pois este número é número do homem, por medida da ironia, não me lembro mais do endereço de onde quero ir, mas sei que chama-se Lacuna Inc. *³* , tem algum trem que passa lá perto? Tem algum ponto final lá perto?


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Estou ionizado, por isso as metáforas andam tão perto. ;D
Eu usei uns dez sites para tirar a base para este texto, além de usar o que eu tinha na memória.
Sói >>> Soer = Costumar

2 comentários:

Anônimo disse...

"sete vezes confuso, cinco sonhos difusos."




te amo pra sempre. juro.

Anônimo disse...

Caramba leff, muito bom!
Viajei legal enquanto tava lendo.

E lembrei que não tinha comentado sobre o vídeo do Tim Burton. E assim, se você souber de mais vídeos como esse me manda *-*, achei MUITO perfeito!