terça-feira, maio 25

MP #1.1


Uma garota interessante. Na verdade, garotas interessantes. Por toda minha vida eu felizmente pude encontrar seis dessas garotas interessantes. Eu, meticulosamente, escolho "interessante" porque essa é uma descrição modesta e ainda assim altamente atrativa. Esteja sempre atento às palavras que escolhe - o que eu vejo hoje em dia são exageros levianos no uso de palavras, as pessoas parecem tem esquecido o que é sentir ou gostar das coisas (provavelmente pela quantidade enorme de vazio que cresceu numa catástrofe tão grande da nossa idade mídia), então quando algo realmente toca, não se encontra palavras para descrevê-lo melhor. Amor está condenado, assim como perfeito, maravilhoso, pegar e foda. Beatriz era uma garota interessante.
Passou horas mexendo a boca diante do espelho estático enquanto treinava seu discurso. Estamos tentando algo convidativo. Eu vejo esse espelho dela como o filtro afetivo de Krashen; é bom e calmo ver alguém jogando fora todas as suas idéias: o filtro diminui possibilitando que se fale a um público maior, com mais facilidade. O espelho e o ridículo da situação ajudam-na a superar a ansiedade. Eu a conheço há oito anos agora, foi por acaso que nos conhecemos, descendo num mesmo elevador. Com alguma dificuldade consegui deixá-la empolgada com sua escrita e finalmente consegui publicar alguns de seus contos, o que se tornou um grande suceso (para ela). Dois anos depois do lançamento, hoje, eu esbarro nela entrando num outro elevador. Conversamos todo o caminho vertical até o nono andar, meu andar, e eu continuei lá dentro enquanto fechavam as portas e continuamos conversando até sua saída maestral no décimo quarto. Um abraço de despedida e ela estava andando pelo corredor até a porta de madeira do escritório do seu novo editor. Eu voltei para a porta de vidro do meu escritório. Foi a uma idade surpreendentemente nova que eu vi o brilho daquele talento dela de enxergar e reagir às coisas de um jeito diferente e intrinsecamente óbvio e natural. Ela cria os paradigmas superestimados que as pessoas não vêem em seu tempo. Aí reside o que eu chamo de genialidade das suas palavras. E ela sempre foi tão bonita quanto seu nome, mas aparentemente demorou bastante para ver isso. Quatro das seis (ou talvez deveria dizer duas de três?) garotas interessantes demoram muito para perceber a beleza que eu pretendo exaltar.
Estou trabalhando na publicação da terceira das minhas garotas interessantes. E meu escritório vive amotinado de páginas e folhas e ainda mais páginas. Uma página sai pela porta e não volta, o que é muito e irritantemente freqüente. Pra ser sincero, meu escritório não anda amotinado por eu trabalhar demais, mais por sê-lo, de fato, um escritório pequeno. É suficiente para mim, mas aquela porta de madeira do décimo quarto é extremamente atraente. Eu era (ou fui...) apaixonado por cada uma dessas garotas interessantes por vez. Falávamos tanto para ser a fala a função principal das nossas bocas. Víamos filmes juntos e separados, mais separados do que juntos. E nós passamos por tantas coisas que não deu para evitar. Digo, não deu para eu evitar. Mas não é essa minha intenção aqui.

Descendo o elevador, oito anos atrás, fui convidado de uma festa enorme, mas terminei em um restaurante self-service razoável, dividindo um grande prato de sushis de morango com a Beatriz e seus óculos. Discutimos ego, idéias e Superbacana. Trovões e como tudo isso se conecta. Ouvimos outras músicas brasileiras antigas e até começamos a mencionar publicações. Não estava em uma situação afável para um relacionamento e eu estava envolvido com outra pessoa - de toda forma, nenhuma faísca foi maior que umas páginas incandescentes, cartas e possíveis noites conversando. Com café, passamos cerca de dois anos com algumas raras conversas, não obstante, muito interessantes conversas. Então nos distanciamos. Nada demais, apenas aconteceu. Em um instante, escrevemos contos bonitos sobre nossa amizade e no próximo momento não conseguimos manter uma conversa adequada por mais de dez minutos, quando conseguíamos nos encontrar para conversar. Lembrávamos cuidadosamente de tudo que passara, mas pode ser que estivéssemos ocupados para procurar uma brecha nas agendas e nos encontrarmos.
Tão de repente, também nos encontramos em frente às majestosas portas-anti-pânico da saída do cinema. Nossa estória voltou, como se atingida por um raio novamente. E voltamos ao lugar onde as publicações domavam nossas conversas longas, acendendo um belo reconciliamento. Ainda assim levei quase um ano para convencê-la de escrever e me deixar editar nossas conversas marcantes e marcadas. Seis meses de edição para nos levar ao que condenamos perfeição e estava ali meu primeiro trabalho de editor. Alguns meses curtindo aquele livro e estudando melhores propostas para ela. E agora em dez minutos vou fechar minha porta de vidro e encontrá-la na entrada do prédio de onde ela sairá do décimo quarto andar e iremos juntos para uma premiação qualquer do seu segundo livro, recém editado pelo décimo quarto. Estava com um vestido muito bonito. Naturalmente, abro a porta do carro.

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Será que consigo levar essa série adiante?

2 comentários:

Lívia Corbellari disse...

sim, eu fiquei curiosa..

Lívia Corbellari disse...

eu tenho o panhador em pdf, leio uma vez por ano x)