domingo, maio 30

MP #4

Do outro lado da rua, no ônibus que ia para um lugar que eu nunca fui, havia o rosto mais bonito de todos os cinco segundos nos quais são possíveis ver rostos bonitos. O sorriso foi mútuo, mas a surpresa foi somente minha. Não esperava ver um rosto daquele no meio da multidão dos ônibus daqui. E não esperava que sorrisse para mim. Era uma época sem muito trabalho, sem muita diversão, sem quase nada. E ela sorriu. E nunca mais nos vimos. Eu tentei. Eu tentei refazer minha rota no dia seguinte e depois no mesmo dia da semana seguinte, tentei acoplar meus horários, tentei chegar mais cedo e tentar subir no ônibus dela. Consegui, subi e ela não estava lá. Perguntei para as pessoas se alguém a tivera visto quando disseram que não sabiam do que eu estava falando. Até que uma pessoa sabia. Por acaso era um antigo caso da minha vida, bem resolvido, bem tranquilo e que não deve ser comentado. Disse que conhecia alguém que se comparasse à fabulosa descrição que eu dera. Paula. Óculos vermelhos. Mente brilhante. Rosto incrível. Nesse momento da minha vida, e em vários momentos posteriores, Paula era o conceito da sublimação estética e moral para mim. Paula era o nome que me seguiria quando eu entrasse em coma por falta de ópio, ócio ou gosto. Ela era o vulcão e as portas.
"Encontrei minha ilha nos seus braços, meu campo nos seus olhos, os braços que nos prendem, os olhos que nos mentem."
Eu sei que eu idealizo a Paula. Mas sei que eu posso. Escrever era o passatempo primordial dos nossos dias que antecederam um relacionamento peculiar. Começamos um namoro sem jeito, com empolgação e retenção de flúidos. Com fervor de vulcão e prudência de Paula. Com vontade e data de validade. Eu iria para a Irlanda, ela não planejava. Eu faço todos os meus planos e refaço e não me incomodo de mudá-los no êxtase de uma instabilidade horrenda. Ela é quase o coma bonito da segurança e persistência no meu ideal sublime de Paula.
Gosto que dói e o suco que goteja nossas roupas. Ainda não há linhas para escrever uma Paula melhor que a Allende, e enquanto não houver linhas, não descreverei a minha Paula. Digo minha porque você nunca será uma idéia irrelevante, uma memória triste ou um ideal perdido. E fim. Por ora, como sempre.

Um comentário:

Lívia Corbellari disse...

acho q foi o melhor ate agora ^^