sexta-feira, junho 1

Laços e Fitas

Abraços e gritos naqueles k7's antiquíssimos. Pediu dois minutos para trocar a fita; foi ao criado mudo e abriu duas gavetas, ou três... Rec.

- Acho tão esquisito ouvir essas fitas que a gente grava, mas acho bom. Sinto saudades de você me mandando calar a boca como só você faz e--
- Cala a boca. - Esta frase sempre antecedia um beijo e uns risos. E aqueles risos foram as testemunhas da intimidade apical e bidirecional.
- ...e de rir de você, ouvir você (e eu) rindo é muito bom. Sinto saudades. Brrrrr... Sinto frio.
- Quer que eu desligue o--
- Não é isso. Sabe aquele frio gostoso de andar sorrindo e rindo com o rosto vermelho? De poder usar o agasalho que quiser? Falta o calor deste frio gostoso.
- Você é um agasalho ótimo. Mas diz coisas sem nexo às vezes...
[Neste momento eu fiz silêncio, mas o gravador não gravou.]
- ... e eu sempre acabo entendendo. Como a gente faz isso?
- Telepatia.

O aparelho não estava mais gravando as nossas vozes. Gastamos aqueles centímetros de k7 com alguns minutos de gemidinhos e gargalhadas.
Pensem o que quiserem, vocês apenas ouvem, mas só eu vi o que nós fizemos aquela tarde (eu e ela). Porém, digo-lhes algumas imagens.

Voltou à gaveta de baixo, abriu-a e fez-me fitar seu cabelo bagunçado enquanto o amarrava na fita verde brilhante. Adoro cetim. Passando os braços em torno do meu pescoço deu-me um laço e içou-me, jogava-nos para um lado, depois para um outro, até que caí no colchão sob os risos e as coxas e a barriga e o colo e o corpo todo dela.
[Guardem esta imagem.]
Beijamos, dormimos e ficamos curtindo nosso frio quente.

Era noite já, acordei sem ela por lá, procurei sob os lençóis brancos, sob a fronha verde e atrás do edredom estampado, olhei até na tal gaveta de baixo: havia papéis.
Nove pedaços de papel, nove folhas de caderno pueril, as nove cartas que mandei para ela. Lembrei cada linha, quase que por mágica, li todas para mim (sem abri-las). Li, reli e de novo. Acometido por duas lágrimas na face esquerda, desesperei-me.
- Edredom maldito, devolva-a! - Foi um grito estranho da pessoa mais estranha daquele quarto daquele hotel daquele bairro daquela cidade (com ou sem as vírgulas).
Em nem um minuto sequer, sequei meu rosto e vesti-me. Parei às cartas de novo e as li de novo, levei 48 segundos, não mais.

Chamou-me Romeu quando, enrolada na toalha, apareceu na porta do quarto e gritou que eu voltasse. Eu já tinha descido os dois primeiros lances de escada, olhei de lá para a minha Julieta na sua varanda e com seu vestido; e com um sorriso bobo, digo, dois (um comigo e outro com ela) disse:
- Só fui tomar um banho, volta pra cama.
- Ó! Ela fala...
E nós rimos. Mostrou-me o gravador para mais risadas, alguns beijos e o resto da noite.

Na manhã seguinte notariam o edredom que eu joguei da janela.






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Coisas de aula de história. :)

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