sábado, junho 26

Eu só penso nela e ela só pensa em se mudar

Bruscamente pega o copo gelado na minha frente e subitamente ataca o líquido amarelo claro. Fala sorrindo pequeno e mastigando alguma coisa sempre. Se isso fosse um filme, todas as cenas teriam a discreta presença de algum lanche o tempo todo. Açúcar no cais do porto, carne morta em alma viva. Vivemos de amor, calor e briga já são seis calejados meses. A conheci por acaso (e há outra forma de se conhecer alguém?) por conta do disco Calango, do Skank. É uma coisa que acende fortemente minha infância. Cresci ouvindo isso. E Lulu Santos. O fato é que ela estava cantando Jackie Tequila na praia e eu achei que encaixava com seus olhos de amêndoa. Quase dois anos depois e - pimba! - morávamos juntos. Nos cercamos em um pequeno apartamento muito bonito no centro da cidade. Falávamos de filmes até o dia começar. Comíamos nossas experiências culinárias bem apropriadas. E ríamos, mais do que a própria Loucura de Erasmo faz rir.
Há duas semanas comprou um edredom bonito. Dormíamos juntos, naturalmente, e eu não sinto frio como ela. Brigamos dessa vez porque ela fazia questão de eu usar seu edredom. Disse que se eu comprava coisas para nós dois, eu deveria "honrar" quando fizesse o mesmo. Dizem que homens e mulheres pensam diferente, talvez por isso não fez sentido a base de sua reclamação para mim. Mas seguimos numa discussão acalorada, porém tranqüila. Depois de alguns minutos, chegamos à conclusão. Segue:
- Se você compra coisas para nós dois, deveria honrar quando eu faço o mesmo.
- Mas de noite, o frio não me incomoda. Pelo contrário, sinto como se estivesse preso, com algo sobre mim.
- Então é por isso que não gosta de dormir abraçado?
Olhei para a minha própria sombrancelha arqueando. - Mas do que você está falando? Eu gosto de te abraçar.
- Acabou de dizer que se sente preso quando te abraço de noite.
- Você não é um edredom. - Ela riu. E depois riu de escárnio.
- Você fala demais. Não é culpa minha se eu não quero que você morra de frio.
- Oh, obrigado, mesmo, mas não estou com frio.
- Você treme de noite. Não vem com essa de não ter frio.
(...) Eventualmente:
- Se todas as palavras que eu já escrevi na minha vida virassem pó por eu dizer isso pra você, eu diria mesmo assim: amor é construído, é esforço, é trabalho, blood sweat and tears, como diz o Churchill, amor à primeira vista é fascinação (paixão é o caralho) - eu tenho mania de parênteses, mas não os digo durante a frase -, desejo é natural, vontade é muito bom e tesão... bem.
Ela sorriu, olhando fundo para meus pés. Eu continuei.
- Mas amor, preocupação, carinho, convalescença, codependência, melosidade, açúcar e diabetes, isso tudo vem com uma construção de você na identidade que você quer, com a pessoa que você escolheu. O resto é atrativo, mas amor é fruto de esforço. Como o prazer no sexo é atrativo para a reprodução e ter filhos é um esforço. E algo quente atrai para algo frio e extremamente bonito. O amor é frio.
Os olhos dela saíram do meu pé e fizeram questão de saltar da face na dúvida.
- E eu ponho meus pés no fogo por isso.

Hoje, pegou o copo de suco de laranja e falava com um sorriso mastigável de que nenhuma preocupação vale a pena. Quando percebeu que eu a estava encarando, bruscamente me perguntou o que havia. Meus pés nunca estiveram tão gelados por ela.

Um comentário:

Lívia Corbellari disse...

Estou divulgando a revista graciano no meu blog, q fala sobre literatura feita no ES, se puder da uma confirida =)