Fim. E este é o nome que já não posso dizer ainda.
Fim é a palavra que não termina os livros. Fim é a palavra que termina logo no começo do próprio som, de tão curto. Fim é o que nunca fez valer o peso das folhas de grama que arrastamos nos nossos tênis adolescentes enquanto andávamos pela Faculdade. Não era a minha faculdade. Não era a faculdade dela. Não era o fim. Era o primeiro dia. Fim é algo de que eu não sou à vontade para falar. Eu não sei entender os fins. Ainda assim, o Fim não me fascina e destrói tanto quanto o Nunca. Os bilhetes de Fim são bonitos. Os bilhetes de Nunca são tristes. Os bonitos de Fim são tristes. O Nunca, bilhetes e bilhetes.
Demorei cerca de dois meses para chegar em São Paulo depois de conhecê-la e discuti-la consigo mesma por vários dias e noites. Demorei dois dias para conseguir marcar um dia, horário e local para a conhecer, finalmente. Nos dia, horário e local corretos, demorei duas horas para perceber que ela não estava por lá. Mais duas horas tentando ligar. E duas horas me convencendo de ficar rodando ali naquela faculdade que não era minha. Não foram dois segundos que separaram nossos olhos de se encontrar. Estava no caminho de volta, resolvi olhar mais uma vez para o banco de praça icônico que me descansou. Ela estava lá e olhou para mim. Todas as dúvidas foram embora. Não me importava ter andado por trinta horas até encontrá-la. Não me importou descobrir - mais tarde - que ela já havia me visto, mas teve vergonha de falar comigo. Não era sacrifício correr os 800 metros que nos separassem. De fato, era muito menos do que uma esquina, mas a câmera lenta da minha vida de cinema prolongou cada passo com os braços abrindo devagar. Eu sentia a agonia de estar em câmera lenta de fato, entretanto tentando correr para chegar logo no final dos nem oitenta metros que nos separavam. E como no cinema de todas as minhas cenas, esquecemos as falas que estavam no script. Esquecemos as ações e as marcações que deveríamos tomar, segundo o roteiro que recebemos cerca de uma semana antes, por e-mails. Entretanto, dispensou o contra-regra que a acompanhava e me abraçou com as mãos nos meus dedos, enquanto transportávamos mais grama pela faculdade que não era nossa. Aos poucos, retomamos o fôlego de falar as coisas que não vinham à memória. Ainda que tímido, foi bonito o esforço pequeno que tivemos para começar, naquele dia de vários passos, a mais longa história de um Fim.
Logo nos cansamos da faculdade e pegamos um ônibus promocional de R$1 para o centro da cidade. Foi me mostrando as coisas que conhecia da cidade enorme que nos cercava. Os prédios erguidos como gárgulas de tão cinzas e imponentes e tristes e observadoras. São Paulo é cinza. Nosso ônibus, naturalmente, era verde. C'est la vie en vert. Andamos, novamente, como ciganos tímidos perante uma cidade que tentávamos quebrar, pelo centro de ruas sujas e bonitas. A sujeira do centro de São Paulo, ali perto da praça da República, é quase natural, se me arrisco a dizer. Ver as pessoas e o lixo no chão, a tinta e as pessoas na parede, as marcas e as pessoas nas árvores; isso tudo é bucólico. Ao menos para mim, que não moro em São Paulo.
Passamos por ruas pequenas e evitamos as galerias. Teria que ir embora cedo hoje, culpa do nosso inesperado desencontro. Fomos conhecer a estação de metrô com gosto de conjunto de bares. Pela primeira vez, sentamos naquelas cadeiras que entrariam para o meu histórico detalhado do Fim. Não mais temíamos criar assuntos diversos. Não precisávamos mais falar da música que tocava no fundo, ou em como foi sua viagem e o que está achando de Sampa? Podemos voltar a falar das músicas que tanto cantamos juntos, das nuvens que me cercaram e das nuvens escuras no chão que é Sampa. Antes de chegar na estação, vale notar, eu secretamente cantei para mim mesmo o trecho afamado assim que cruzei a Ipiranga com a São João. Algum tempo depois descobrimos que meu segredo foi dela também. E quando nos cansamos das cadeiras, ao ponto que o relógio nos pesava nos bolsos, fomos aos trens. Seria sorte, destino ou coincidência programada que nos pôs no mesmo trem? Um pouco de todos, pois não era o trem ideal para ela, mas ela alega até hoje que não o sabia, no momento.
Para quem nunca pega metrô, e é turista do tipo que só pode aproveitar curtos três minutos entre as estações, as viagens eram sempre rápidas demais para nos valer de algum conteúdo instrucional nessa jornada besta do capixaba verde a São Paulo. Ainda assim, usamos os curtos minutos para aflorar as perguntas que terminaram sem resposta. No final da vida, as respostas não são tão importantes quanto ter um mistério para resolver no post-mortem. Perguntei o que achava da minha Sampa que eu estampava na cara fascinada e os olhos perdidos por ela. Não a deixei responder não fosse com um apressado "minha parada" seguido de um abraço curto e um beijo incontestável. Incontestado. E maldita câmera lenta que não me aparece em horas oportunas. Esse foi o Fim daquela noite para mim, que entrei molhado no quarto de hotel, quase uma hora depois. Sem me preocupar com nada que não fosse pensar na resposta que ela não dera. Não me disse nada sobre o que faríamos no próximo dia. Triste, curioso e imensamente interessado, assisti de olhos pesados aquela noite chegar sozinha no Fim.
Demorei cerca de dois meses para chegar em São Paulo depois de conhecê-la e discuti-la consigo mesma por vários dias e noites. Demorei dois dias para conseguir marcar um dia, horário e local para a conhecer, finalmente. Nos dia, horário e local corretos, demorei duas horas para perceber que ela não estava por lá. Mais duas horas tentando ligar. E duas horas me convencendo de ficar rodando ali naquela faculdade que não era minha. Não foram dois segundos que separaram nossos olhos de se encontrar. Estava no caminho de volta, resolvi olhar mais uma vez para o banco de praça icônico que me descansou. Ela estava lá e olhou para mim. Todas as dúvidas foram embora. Não me importava ter andado por trinta horas até encontrá-la. Não me importou descobrir - mais tarde - que ela já havia me visto, mas teve vergonha de falar comigo. Não era sacrifício correr os 800 metros que nos separassem. De fato, era muito menos do que uma esquina, mas a câmera lenta da minha vida de cinema prolongou cada passo com os braços abrindo devagar. Eu sentia a agonia de estar em câmera lenta de fato, entretanto tentando correr para chegar logo no final dos nem oitenta metros que nos separavam. E como no cinema de todas as minhas cenas, esquecemos as falas que estavam no script. Esquecemos as ações e as marcações que deveríamos tomar, segundo o roteiro que recebemos cerca de uma semana antes, por e-mails. Entretanto, dispensou o contra-regra que a acompanhava e me abraçou com as mãos nos meus dedos, enquanto transportávamos mais grama pela faculdade que não era nossa. Aos poucos, retomamos o fôlego de falar as coisas que não vinham à memória. Ainda que tímido, foi bonito o esforço pequeno que tivemos para começar, naquele dia de vários passos, a mais longa história de um Fim.
Logo nos cansamos da faculdade e pegamos um ônibus promocional de R$1 para o centro da cidade. Foi me mostrando as coisas que conhecia da cidade enorme que nos cercava. Os prédios erguidos como gárgulas de tão cinzas e imponentes e tristes e observadoras. São Paulo é cinza. Nosso ônibus, naturalmente, era verde. C'est la vie en vert. Andamos, novamente, como ciganos tímidos perante uma cidade que tentávamos quebrar, pelo centro de ruas sujas e bonitas. A sujeira do centro de São Paulo, ali perto da praça da República, é quase natural, se me arrisco a dizer. Ver as pessoas e o lixo no chão, a tinta e as pessoas na parede, as marcas e as pessoas nas árvores; isso tudo é bucólico. Ao menos para mim, que não moro em São Paulo.
Passamos por ruas pequenas e evitamos as galerias. Teria que ir embora cedo hoje, culpa do nosso inesperado desencontro. Fomos conhecer a estação de metrô com gosto de conjunto de bares. Pela primeira vez, sentamos naquelas cadeiras que entrariam para o meu histórico detalhado do Fim. Não mais temíamos criar assuntos diversos. Não precisávamos mais falar da música que tocava no fundo, ou em como foi sua viagem e o que está achando de Sampa? Podemos voltar a falar das músicas que tanto cantamos juntos, das nuvens que me cercaram e das nuvens escuras no chão que é Sampa. Antes de chegar na estação, vale notar, eu secretamente cantei para mim mesmo o trecho afamado assim que cruzei a Ipiranga com a São João. Algum tempo depois descobrimos que meu segredo foi dela também. E quando nos cansamos das cadeiras, ao ponto que o relógio nos pesava nos bolsos, fomos aos trens. Seria sorte, destino ou coincidência programada que nos pôs no mesmo trem? Um pouco de todos, pois não era o trem ideal para ela, mas ela alega até hoje que não o sabia, no momento.
Para quem nunca pega metrô, e é turista do tipo que só pode aproveitar curtos três minutos entre as estações, as viagens eram sempre rápidas demais para nos valer de algum conteúdo instrucional nessa jornada besta do capixaba verde a São Paulo. Ainda assim, usamos os curtos minutos para aflorar as perguntas que terminaram sem resposta. No final da vida, as respostas não são tão importantes quanto ter um mistério para resolver no post-mortem. Perguntei o que achava da minha Sampa que eu estampava na cara fascinada e os olhos perdidos por ela. Não a deixei responder não fosse com um apressado "minha parada" seguido de um abraço curto e um beijo incontestável. Incontestado. E maldita câmera lenta que não me aparece em horas oportunas. Esse foi o Fim daquela noite para mim, que entrei molhado no quarto de hotel, quase uma hora depois. Sem me preocupar com nada que não fosse pensar na resposta que ela não dera. Não me disse nada sobre o que faríamos no próximo dia. Triste, curioso e imensamente interessado, assisti de olhos pesados aquela noite chegar sozinha no Fim.
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