Essa é a noite que marcaria, enfim, nossa existência como duas pessoas. A encontraria para beber alguma coisa, naturalmente. Com a esperança solene e atávica de nos divertirmos com a sensação dos corpos mais lentos e pulsos mais estridentes. Toda minha esperança era isso. Honesta, natural. Preciso notar que ela estava com alguns problemas devido a péssimas experiências e piores escolhas. Conversamos e vimos mais filmes sobre isso. Mais bilhetes, mais músicas. Estava tudo bem, mas aquele tipo de incômodo demora a passar. Era do tipo de incômodo que pessoas conhecidas e pouco decentes causavam. Nós não éramos exatamente decentes, mas me refiro à uma decência para os nossos padrões. Em resumo, para me aproveitar dos clichês comuns da TV, do cinema e de situações reais - entretanto raramente de livros - seus problemas eram alguns caras que, em momentos diferentes, "a usaram e abandonaram sem se importarem". Eram tempos difíceis para garotas como ela, que gostam do sabor da dúvida nas palavras que a beijam. E um pouco do perigo exagerado inerente a seus interesses.
Nos vimos de lados diferentes da rua com um sorriso que eu lancei para alcançá-la já sorrindo enquanto se curvava sobre o feltro verde da mesa de sinuca. Quantas vezes já vi aquela cena? Não me canso e até acho divertido reparar que sempre chego na sua vez de jogar. Ela não joga muito bem, mas gosta de jogar. E era exatamente o que eu estava fazendo aquela noite. A conexão era incrível, de fato. As coisas que me passavam pela cabeça, começam a martelar seus ouvidos quase antes de eu conseguir falar. Ainda assim parecia surpresa quando falávamos sem conteúdo e ríamos. Começamos a ouvir chamar a água que caia em cima do telhado. A chuva continuava a ficar forte enquanto o som se transformava na batida de uma dança estranha que nunca a vi fazer. E quase como em passe de mágica, jogou a sinuca brilhantemente por vez. Os trajetos eram de diamante e seguiam as bolas até derrubarem duas - ímpares - nas caçapas. O desenho ficou impresso nos olhos enquanto se projetava sobre os joelhos e saltava com os braços para cima, desajeitada, acertando o taco comprido em outras duas bolas da mesa. Todos riram enquanto ela me abraçava em outro ambiente completo. Disse que eu dera a sorte. Imaginei se eu daria sorte.
Como de costume, ao final do primeiro ato, os dançarinos se retiram do palco, troca-se o cenário improvisado para que voltem e dêem continuidade a estória que estava ainda por-contar. Fizemos nossas reverências ao sair e graciosamente nos sentamos no cenário bucólico do bar que já vimos também tantas vezes. Uma, duas, três tampinhas metálicas rodavam sobre a mesa de madeira. E mais algumas depois de vários filmes que comentávamos, pessoas de quem ríamos, e afagos que nunca trocamos a não ser nos meus olhares introvertidos demais. E com passo rápido, deu-se o fim de outra quinta-feira. Nossas manhãs de sexta começavam tarde, por causa de horários de faculdade e afins. As dos sábados eram quase sempre reservadas a cursos extras - já estudamos fotografia, escrita criativa, culinária doméstica, história geral e decoração. Por isso saíamos às quintas ou sábados, comumente. Chegamos rápido na quinta que vem.
Decidi sair para ver o que era aquele barulho. A noite toda era o mesmo clique-clique de bomba relógio. Mas há uns cinco minutos começaram as batidas insistentes. Como se fizesse barulho pelo fazer de barulho, não por algum outro motivo obscuro. Mas de fato, eram batidas na porta. Desde agosto, eu morava com meus primos em um apartamento perto da faculdade, e por duas semanas nesse mês, eles estariam fora, o que me dava o apartamento para mim. Logo, batidas insistentes não incomodariam ninguém - como um fantasma incompetente faz. Indiscriminadamente, abri a porta com a coceira característica nos olhos. Ela estava lá ainda com o sorriso da noite anterior. O bilhete dessa vez era seus olhos tão fortes piscando com mais força. Escrita, a cena dura muito mais tempo que ao vivo. E nesse tempo eu pude analisar a cor da esclerótica, umas marcas avermelhadas no castanho claro da pele dela, perto da boca rosy-lips, a mão esquerda coçando a mão direita que segurava uma bolsa preta, dessas de escola primária. Seus ombros pesados com um ar de culpa e outra mochila que, ao virar, revelou-se pesada e estufada. As roupas apressadas e sapatos frescos e tristes sem meia. Entrou sem dizer nada depois de me ver olhando para todo o seu corpo. Sempre sorrindo. Hoje era o dia. Ou seria amanhã, mas ela fez ser hoje. Há uns quatro anos atrás marcamos essa data. Com sabor e saber. Combinamos viajar juntos na meia data entre nossos aniversários. Nasci um mês (e um ano) exato antes dela. Há dois meses compramos as passagens. Hoje é domingo, dia 9, amanhã viajamos às 2 da tarde, vamos pelo aeroporto internacional de Congonhas para Dublin. O que me surpreende mais a seu respeito, além de todos os motivos já dados, é a minha capacidade de manter os planos inalterados. Fazer planos sempre foi meu passatempo principal, ainda mais emocionante do que realizá-los. Mas com ela as coisas aconteciam, na ironia fina e belíssima da nossa amizade conturbada de tesão e vontades. Vamos para Dublin mudar coisas.
Como de costume, ao final do primeiro ato, os dançarinos se retiram do palco, troca-se o cenário improvisado para que voltem e dêem continuidade a estória que estava ainda por-contar. Fizemos nossas reverências ao sair e graciosamente nos sentamos no cenário bucólico do bar que já vimos também tantas vezes. Uma, duas, três tampinhas metálicas rodavam sobre a mesa de madeira. E mais algumas depois de vários filmes que comentávamos, pessoas de quem ríamos, e afagos que nunca trocamos a não ser nos meus olhares introvertidos demais. E com passo rápido, deu-se o fim de outra quinta-feira. Nossas manhãs de sexta começavam tarde, por causa de horários de faculdade e afins. As dos sábados eram quase sempre reservadas a cursos extras - já estudamos fotografia, escrita criativa, culinária doméstica, história geral e decoração. Por isso saíamos às quintas ou sábados, comumente. Chegamos rápido na quinta que vem.
Decidi sair para ver o que era aquele barulho. A noite toda era o mesmo clique-clique de bomba relógio. Mas há uns cinco minutos começaram as batidas insistentes. Como se fizesse barulho pelo fazer de barulho, não por algum outro motivo obscuro. Mas de fato, eram batidas na porta. Desde agosto, eu morava com meus primos em um apartamento perto da faculdade, e por duas semanas nesse mês, eles estariam fora, o que me dava o apartamento para mim. Logo, batidas insistentes não incomodariam ninguém - como um fantasma incompetente faz. Indiscriminadamente, abri a porta com a coceira característica nos olhos. Ela estava lá ainda com o sorriso da noite anterior. O bilhete dessa vez era seus olhos tão fortes piscando com mais força. Escrita, a cena dura muito mais tempo que ao vivo. E nesse tempo eu pude analisar a cor da esclerótica, umas marcas avermelhadas no castanho claro da pele dela, perto da boca rosy-lips, a mão esquerda coçando a mão direita que segurava uma bolsa preta, dessas de escola primária. Seus ombros pesados com um ar de culpa e outra mochila que, ao virar, revelou-se pesada e estufada. As roupas apressadas e sapatos frescos e tristes sem meia. Entrou sem dizer nada depois de me ver olhando para todo o seu corpo. Sempre sorrindo. Hoje era o dia. Ou seria amanhã, mas ela fez ser hoje. Há uns quatro anos atrás marcamos essa data. Com sabor e saber. Combinamos viajar juntos na meia data entre nossos aniversários. Nasci um mês (e um ano) exato antes dela. Há dois meses compramos as passagens. Hoje é domingo, dia 9, amanhã viajamos às 2 da tarde, vamos pelo aeroporto internacional de Congonhas para Dublin. O que me surpreende mais a seu respeito, além de todos os motivos já dados, é a minha capacidade de manter os planos inalterados. Fazer planos sempre foi meu passatempo principal, ainda mais emocionante do que realizá-los. Mas com ela as coisas aconteciam, na ironia fina e belíssima da nossa amizade conturbada de tesão e vontades. Vamos para Dublin mudar coisas.
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