O dia não era propício. Como eu mesmo já sabia que não seria. Entretanto, também conhecia o fato de que dia nenhum de fato seria propício. Há quatro dias viajando, dois dias instalados em uma pequena pensão, Avalon House com suas escadas meio surreais, ainda em Dublin. As ruas da cidade se caminhavam para nós, sempre que o ar gelado vinha nos dar as mãos. Preciso confessar que o surrealismo me incomoda de vez em quando, com todas as imagens querendo pular de lugares improváveis. Não me importo com o caos - sempre organizado nos quadros e livros - mas me irrita ver a questão que se faz de tentar ser improvável. Dar olhos a cidades, gosto para as ruas e movimento para as figuras. Ser pouco convencional se tornou convencional, e contradizer é irrisório. Não existe orignialidade que não seja uma apropriação nova, ou diferente roupagem para uma ou quatro idéias combinadas. Isso está suficientemente bom para mim. Entretanto... Pelos dois dias e passos incontados que passamos, de fato eu sei que a cidade nos olha com imenso carinho. A cidade nos aprova. Entorta suas esquina e afina as ruas e calçadas para nos tocarmos um abraço. Sopra de novo e de novo um frio tranquilo, segurando nossas mãos. Acendendo e apagando seus poros e pêlos enquanto andamos. Acende uma forte luz vermelha que destaca a palidez que o frio lhe emprestava. Luzes verdes nos deixavam felizes sempre.
Olhamos as portas sempre impressionantes de uma cidade que não conhecemos. Vemos as luzes bonitas de um café (não me lembro do nome), não entramos. Estávamos indo, segundo indicações animadas de um italiano com sotaque divertido, a um bar chamado Hairy Lemon. Agradável e sóbrio como todo bar deve ser. Era difícil ficarmos sem assunto, viajando. Sempre que as palavras desistiam de nós, sabíamos que a próxima luz verde nos traria de volta um pouco do desejo feliz de falar e bebermos pra ficar vermelhos. E bebíamos, copos e outros copos e mais. Umas taças descabidas porque não gostamos tanto assim de sentir tão doce a boca de vinho dentro do copo de cerveja. O que me fez lembrar feliz de um outro episódio. Ainda no Brasil, era vésperas do meu aniversário e decidi fazer chili com uma receita que encontrara na internet. Com toda a pimenta que eu precisava, comi de me fartar, como se fosse sopa, quando acabaram os biscoitos e pedaços avulsos de pão ou banana. E quase como uma releitura dos pequenos prazeres que Jeunet nos deu com Mathilde e Amélie, eu bebi com força o café amargo. Faz gosto e mil dias de prazer sentir o amargo cortando a boca ainda quente e picante. Faz ignorar os próprios sentidos. Faz sentir vontade de experimentar todas os sabores ao mesmo tempo. Escovar os dentes com menta parece um pecado ao nível de Helena e Helenas.
Com tantas luzes, poucas músicas conhecidas, menos rostos conhecidos e uma familiaridade incomum e tremenda pelo lugar, eu acreditava impossível não sorrir mais do que nossos beijos covalescentes. Mas a minha ousadia era desgostosa. Hoje não era o dia propício, mas mais uma vez as luzes são minha desculpa para abrir essa porta.
Voltamos a Avalon perto de quatro da manhã. Comentamos, ainda no bar, da ironia de sair do Brasil - país dos bares aconchegantes de calçadas - para beber na Irlanda, em um segundo andar abafado e barulhento. Ainda assim foi incrível de se perceber as pequenas diferenças. As pessoas sorriam para nós, na recepção do hotel. O italiano não estava por lá nesse momento. Eu fiquei um tanto quanto feliz por isso. Segurou minha mão, não pelo apoio etílico, tampouco pelo frio que já nem sentimos mais. Segurou sorrindo como eu imaginava que fosse sorrir.
Ainda no bar, antes, assim que nos levantamos após pagar a conta, gorda, mas razoável, disse que tinha que falar algo. Falei com um riso escasso e reagiu como não fosse imaginar que reagiria. Ouvi-me dizendo que era a maior merda que eu poderia ter dito depois de viajarmos tão longe. Não imaginava que teria feito tal proposta depois de bêbados. Passamos algumas situações incríveis por causa de bebidas e falta de controle imediato. Não se deve comentar, regra número um. E regra número dois. Hairy Lemon era um lugar barulhento, portanto me aproximei e disse as primeiras palavras perto do seu ouvido. Introduzindo calmamente um discurso soberano sobre suas ações, reações e emoções. Como tudo me atingia. Ou me atingiria. Preciso de silêncio, não daria pra falar assim. E foi simbolicamente ao momento que segurei a porta para que ela passasse, que entrou em mim o vento frio da dúvida, ainda que deliciosa brisa da coragem. Ou deliciosos copos de coragem que finalmente me espoucaram o ânimo.
Foi um pedido direto de namoro. Seus olhos incharam em uma surpresa que eu já conheci antes. O silêncio perturbado da porta de um bar era a trilha sonora perfeita para duas pessoas que se cantam tantas canções e guitarras virtuoses. Expliquei que a pedir em namoro não significava, de fato, namorarmos. Significava dar uma chance a um relacionamento que viveu no nunca por tanto tempo. Escrevemos bilhetes enormes e descrentes do sabor da verdade por tempo demais, negligenciando as razões para não vivermos aquilo juntos. Sempre foi assim para mim. Quando não me era possível ter as experiências na vida real, eu tentaria escrever e descrevê-las com mais detalhes que me fossem possíveis. Sentir que já conhecesse a história sempre me fez sentir parte da estória. Jogar essa bomba sobre ela foi a melhor definição de maior-merda-que-pudesse-fazer. A surpresa, à contradição, brinda confiante. Os sussurros e murmurinhos que me batiam no ouvido em inglês, seguindo todo nosso diálogo no mesmo idioma, fez-me lembrar da Fragilidade, vosso nome é mulher de um Shakespeare indecente e duvidoso. Seus olhos eram precisos. Não consegui atentar de fato qual cor de luz acendia seus olhos. Mas seus olhos eram um final triste para uma noite cheia.
Sua fragilidade estava exposta como gosto de azeitona em qualquer coisa. Minha fragilidade era apenas me manter de pé. Ela disse não. Não namoraria, mas me beijou. Com ohálito destrutivo das idéias imemoráveis que destroem amizades quando a vontade não é transparente. Vale a pena tentar. Viemos para tão longe de casa, menos por causa dos bares e pedidos idiotas de álcool. Nossa vontade nem tão secreta estava fundada em uma simples ilusão de recomeçar. Estaríamos, ainda que por tempo limitado, em um lugar novo, sem olhares para nos julgar. Sem pessoas que nos conhecessem. Poderíamos ser quem quiséssemos. Gostaríamos de ser quem quiséssemos. Felizmente para os olhos sem cor daquela minha vontade estranha, ela também gostaria de ser alguém pronto para experimentar um relacionamento. Espero que se lembre disso quando acordarmos.
Voltamos para Avalon. Perdemos algum tempo sem respirar nas ruas de Dublin. Disse rindo que se estava pensando em convidar o italiano para algum programa cultural. Mas que não é algo que se fizesse se você está namorando. Abri a porta de Avalon para ela entrar. E segurou minha mão com o sorriso que o nunca não me tinha deixado ver por tanto tempo.
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Ficou muito comprido, mas não pode ser dividido.
2 comentários:
~ w~ o ~ w~
~ ~~ ~ breathtaking
adorei o nome do hotel, Avalon
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